VIAGEM AO MAIS FAMOSO DESTACAMENTO

 

VIAGEM AO MAIS FAMOSO DESTACAMENTO

 

 

A Companhia de Cavalaria 2500, pertencente ao Batalhão de Cavalaria 2870, tinha a sua base no Cuito Cuanavale e um destacamento formado por um pelotão no Lupire.

O Lupire, não era um aldeamento, mas apenas um morro onde numa pequena área vedada a rede se encontrava um edifício em pedra e cimento e umas quantas casernas de abrigo e serviços, logo abaixo passava o rio lupire e na margem esquerda um outo morro ainda mais alto onde a tropa sabia que existia um aldeamento in.

No edifício principal havia uma metralhadora montada num tripé sempre pronta a disparar. Sempre que as nossas tropas disparassem uma rajada logo do outro morro se ouvia outra rajada, o que não impedia que quer uns quer outros se reabastecessem de água no rio lupire.

Vamos então à celebre primeira viagem a este famoso destacamento das terras do fim do mundo, como era conhecido o distrito do Cuando Cubango.

 

1º Baixa da Companhia

 

Nota prévia: - A minha relação com o comandante de Companhia, foi sempre um pouco tensa porque este achava que eu tinha obrigação de lhe fornecer viaturas em prontidão sempre que precisava o que sem peças sobressalentes era muitas vezes impossível, no entanto a relação foi sempre correta entre ambos. Por vezes acusava-me de eu defender demasiado os condutores, a que ele chamava – “os seus meninos”. Claro que sempre, mas dentro da disciplina militar os ajudava, não só aos condutores, mas a todos, mecânicos, atiradores e mesmos os GE -grupos especiais de nativos.

A famosa picada do Lupire, onde a anterior companhia tinha perdido alguns elementos, tinha partes de mata arborizada onde as viaturas tinham forçosamente de passar e nas camadas “chanas” onde só existia capim podia-se andar por qualquer lado, mas tinha que se atravessar cerca de seis riachos em que as pontes eram construídas com troncos quase sempre movediços. Mais tarde para protecção foi feita uma desmatação nas zonas arborizadas com uma faixa de protecção de cinquenta metros para cada lado e desviou-se a picada para depois das nascentes dos riachos para evitar as pontes. Toda esta zona é de areias muito finas o que obriga a que as viaturas tenham que circular sempre com as trações a todas os eixos ligados e muitas vezes só nas velocidades lentas ou baixas. Todo o terreno está situado numa altitude média de cerca de mil e duzentos metros e influenciada já pelo deserto da Kalahri.

Tinha saído uma coluna de reabastecimento para o Lupire e não sabemos porquê, mas conseguiu ficar, com uma das Berlliets atolada junto á nascente de um dos afluentes do rio Cuanavale e foram mandando mensagens via rádio para o quartel. O Capitão, Comandante da Companhia, porque naquela altura não tinha forças de protecção para acompanhar uma equipa ao local, foi-lhes dizendo sempre com a minha presença para tentar isto e aquilo, mas ao fim de três dias, eles continuaram no mesmo local sem conseguirem desatolar a berlliet. Ao terceiro dia já muito próximo do anoitecer, o Capitão veio ter comigo e disse-me, eles nunca mais se vão desenrascar! Ó Ferreira, prepara uma equipa e material que logo que tenha pessoal para organizar a força de protecção avançariam. Respondi-lhe: eu vou lá. Ficou muito admirado. Disse-lhe: Saímos como era normal de madrugada (o sol nascia por volta das 4 da manhã). Disse o Capitão que não tinha ainda força de protecção porque o 1º pelotão tinha chegado naquele dia 21 de Junho da mata e tinham que descansar pelo menos um dia, por isso tinha de aguardar mais um pouco. Respondi-lhe que ia organizar os carros e que eu próprio ia falar com os militares do 1º pelotão para me fazerem escolta. Assim fiz. E como nas reuniões com o capitão ele ficava afinado por eu estar sempre a defender os condutores e mecânicos dizendo muitas vezes por piada “lá está você, sempre a defender os seus meninos”, mas mal ele sabia que eu não tinha só boas relações com os condutores e mecânicos, mas sim com todo o pessoal da companhia e não só. – Mais à frente, conto, assim como já o demonstrei atrás.

Depois de tudo pronto dirigi-me à caserna do 1º pelotão e estavam quase todos deitados a descansar, coloquei-lhes o problema e todos disseram logo que sim. Fui ter com o capitão e disse-lhe do desfecho e ele ficou muito admirado como é que eles, tendo regressado nesse dia do mato já iam novamente. Disse-lhe apenas que tinha de ser ele, a dar a notícia ao Furriel porque se os homens iam o Furriel também tinha que ir. Ele assim fez, o Furriel, foi …, mas contrariado.

Ainda o sol não tinha nascido e já nós estávamos a caminho, com uma coluna composta por uma Berlliet e um Unimog equipado com um cabo de guincho na frente. Os camiões Berlliet também tinham guicho com cabo bastante comprido, mas tinham um sistema de segurança, por embraiagem que não arrastavam mais de três mil Kilos, enquanto os guinchos do Unimog puxava até rebentar o cabo o que nos fazia estar sempre atentos para que o cabo no caso de rebentar não nos atingir.

Chegamos junto do 3º pelotão por volta do meio-dia e encontramos a maior barafunda de todos os tempos. É que alguém se lembrou de pegar fogo ao capim e este ardia em grandes labaredas na direcção das viaturas e por isso estavam todos em pânico tentando apagar o fogo. Verdade se diga que a ideia foi má e valeu o facto de chegarmos naquele momento. O pessoal estava muito preocupado com fogo descorando um pouco a segurança e de repente alguém vê um vulto no interior da mata com farda amarela. Dado, alerta, logo algum pessoal empunhou as armas e saiu em perseguição dos turras, mas depois de muito procurar não avistaram nada. Houve quem disse-se que possivelmente o soldado que o viu, talvez não tenha visto bem. Mas ficamos sempre com “a pulga atrás da orelha” e já não se descorou mais a segurança. Mais tarde numa operação foi apanhado um indígena que ia a fugir. Foi trazido para o quartel e depois de interrogado acabou por confessar que tinha estado naquele lugar, mas só estava a vigiar para depois alertar os colegas e que quando foi perseguido se enfiou no rio, dentro de água, e respirava por uma palheira, e que nessa altura os soldados passaram junto a ele, mas como estava dentro de água não o viram. Foi depois entregue à PIDE/DGS e não sei o que lhe aconteceu.

Com duas Berlliet e um Unimog atolados na lama e fogo próximo, não houve tempo para pensar. Logo mandei atar pela traseira o Unimog que levava já com guincho dianteiro à árvore mais próxima que ficava a uns bons 30 metros e o cabo na primeira viatura, e assim sucessivamente. Quando acabamos só por milagre o fogo não chegou à última viatura.

 

 1º Problema

 

Quando acabamos, e estávamos a meio do dia enviamos um rádio para o quartel dizendo que tínhamos terminado a missão, e que a coluna de reabastecimento ia seguir para o destacamento do Lupire e nós íamos regressar ao quartel. Pura ilusão. Do quartel veio a ordem, dizendo que, uma vez que estávamos a meio de caminho, para seguirmos com a coluna e regressarmos todos juntos uma vez que no Lupire havia dois Unimogs que não funcionavam e seria melhor rebocá-los para o quartel. Alguns soldados protestaram sendo o 1º cabo Pereira um dos que mais protestou e até dizia que ficava com a secção dele ali até nós regressarmos. O Furriel Ribeiro, lá convenceu todos a seguir pois eram ordens do Comando e não havia nada a fazer.

Meia dúzia de Km á frente a Berlliet que levava o reabastecimento, numa pequena subida, mas de areia muito movediça e àquela hora do dia ainda era mais movediça, rebentou com a embraiagem, e para maior azar, depois de o condutor a esforçar um pouco enterrou a Berlliet e ficou com o chassi apoiado no chão de areia.

Ficou ali, logo justificada a ordem dada para seguirmos com a coluna.

Vim depois a saber que durante os três dias estiveram sempre a tentar tirar a Berlliet atolada, e claro foi até acabarem com o disco. Felizmente era uma das peças sobresselentes que levávamos sempre connosco quando saíamos para desempanar qualquer viatura.

Assim deitados, de pá na mão, revezando-nos uns aos outros até conseguirmos abrir buraco suficiente para desapertar a caixa de velocidades.[1] Puxá-la atrás para retirar o disco de embraiagem velho e colocar o novo, tudo isto com o auxílio dos macacos hidráulicos dos carros.

Quando acabamos já pouco faltava para se fazer noite, o dia nasce cedo, mas a noite também aparece muito cedo. Pelas 18H00 já não se vê um palmo á frente do nariz.

Em circunstâncias normais, passaríamos ali a noite, porque era sempre muito arriscado andar com os carros de noite.

Seguimos para o destacamento e não tínhamos nenhuma nução de quanto faltava para chegarmos. A noite fez-se escura como breu e lá fomos rodando, atrás das outras viaturas, porque a nossa viatura era a última da coluna, na cabine ia o mecânico a conduzir eu e o Furriel da força de protecção, na carroçaria os soldados, sentados como é normal no banco longitudinal de costas uns para os outros virados para a mata. 

2º Problema

 

De repente ouviram-se algumas rajadas de espingardas automáticas, o pessoal da coluna reagiu de imediato ao ataque. A mim pareceu-me que os tiros vinham do lado direito, o condutor saiu logo do lado esquerdo o Furriel pelo lado direito e eu depois de pegar na minha arma desci logo atrás do Furriel, rodopiando por baixo da Berlliet para o lado contrário, mas, entretanto, os tiros pararam, foi quando no meio da escuridão vi um vulto caído em cima de um pequeno carvalho e fui em seu socorro. Quando o tentei endireitar e lhe coloquei as mãos nas costas para o erguer, verifiquei logo que ele tinha um grande buraco de bala que tinha entrado pelo peito, disse-lhe para ter calma que já chamava o enfermeiro. Mas de repente, alguém clamava em altos gritos para cessar-fogo. Logo de seguida chegaram os da frente dizendo que afinal foram os do destacamento que deram uns tiros, mas nem os da frente da coluna se aperceberam que já estavam dentro do arame farpado e por isso também reagiram ao fogo.

Chamei o enfermeiro e transportamos o soldado, penso que já cadáver para o destacamento, só aí, eu percebi que as viaturas da frente já estavam dentro do arame farpado do destacamento.

O soldado morto era precisamente o 1º Cabo Pereira, aquele que mais protestou pelo facto de depois de desatascar os camaradas não regressarmos ao quartel. Será que o Pereira já pressentia que algo não estava bem? Já pressentia a morte? Ficará sempre a dúvida.

António Lourenço Mendes Pereira faleceu ali, junto de mim, no dia 22 de Junho de 1969 com uma bala que lhe atravessou o tórax e foi dado como morto em combate.

 Mas possivelmente ainda hoje estará na consciência do Alferes que autorizou que se disparassem uns tiros, ele disse que foram para o ar, mas com eles havia também GE (forças de nativos) e eles como os turras disparam para qualquer lado. Mais tarde o pessoal, depois de rever a situação, concluiu que possivelmente tenha sido o soldado que vinha sentado ao lado que ao virar-se para dar tiro, uma vez que o Pereira vinha sentado do lado contrário ao que se ouviram os tiros, tenha atingido o Pereira. Mas nunca ninguém apurou ou não quis apurar a verdade. A verdade é que o Pereira morreu ali e foi transportado em braços para a caserna do destacamento e, foi ali que dormimos, na companhia do Pereira e assim terminou aquele fatídico Domingo de Junho.

 

3º Problema

 

De manhã o Alferes comunicou para o quartel, já depois de ter combinado com os responsáveis das diversas forças, menos comigo, e participou o sucedido segundo a sua versão. Veio depois ter comigo dizendo-me que tinha ordens do comando para que rebocasse para o quartel os tais dois Unimogs avariados e transporta-se o corpo do Pereira. Aí revoltei-me e disse-lhe que comigo ou sob as minhas ordens o corpo do Pereira não iria na coluna e como Furriel mais velho, por isso com poder de comando sobre os outros. O Alferes perante a minha recusa e sabia bem que não me iria demover, porque já me ia conhecendo, pôs-se em contacto com o comando e só perto do meio-dia veio a ordem para limpar uma picada larga junto do destacamento, porque um piloto sul-africano com um avião Cessna se prontificou a vir buscar o corpo aterrando nama picada e colocando a sua própria vida em perigo.

 

4º Problema

 

Seguiu a coluna com todas as viaturas, menos o Unimog que trazia, este ficou no destacamento para deslocação do pessoal, em especial para o reabastecimento de água porque de resto só faziam pequenas patrulhas nos arredores do destacamento. Os Unimogs avariados atrelados às Berlliets.

No início da viagem que consistia em descer a picada do monte do Lupire correu tudo muito bem, mas logo que encontramos a picada de areia foi de desesperar. As Berlliets logo que havia uma pequena subida enterravam-se na areia e não conseguiam rebocar os Unimogs. Foi então que como alternativa, porque só uma Berlliet tinha guincho com um cabo de cerca de 50 metros desatrelávamos o Unimog, subíamos a Berlliet e com o guincho puxávamos o Unimog até próximo caso a subida fosse maior tínhamos que repetir a operação. Depois de termos um Unimog no cimo da subida e enquanto uns atrelavam o Unimog nós íamos repetir tudo novamente com o segundo Unimog.

 Assim andamos durante três dias para fazer uma picada de 80 Km. Ao terceiro dia, já sem ração de combate, apenas a água dos rios, apareceu um Cessna, para nos deixar algumas rações de combate e o Capitão, perguntando por que razão estávamos a demorar tanto, mas com um tom de voz que não sei se era para impressionar o piloto se não. Via rádio disse-lhe que desaparecesse e não chateasse. Levou a coisa a sério porque não voltaram a sobrevoar a coluna e viu que o pessoal estava já mais que cassado. Isto foi de manhã e durante a tarde chegamos ao quartel. O Capitão apenas perguntou se estava tudo bem e para irmos tomar banho que já tinha mandado preparar o jantar. Não se referiu ao episódio da manhã nem nunca mais se referiu a ele.

 

Destacamento do Lupire (não havia população, só a tropa) foto do livro do BAT. CAV. 2870

 


Ponte sobre um dos riachos

 


[1] - A caixa de velocidades de uma Berlliet tem uns sessenta centímetros quadrados de base por uns cinquenta centímetros de altura e deve pesar mais de duzentos Kg.

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