José Pereira de Oliveira Barbosa “Padre”

 José Pereira de Oliveira Barbosa “Padre



Pároco de Santa Eulália de Arnoso de 19-01-1907 a 15-02-1957


 

O Padre José Pereira de Oliveira Barbosa foi um dos párocos que pela sua personalidade mais terá marcado a comunidade de Santa Eulália Arnoso e a anexada paróquia de S. Salvador do Mosteiro de Arnoso, durante a primeira metade do século XX.

Nasceu em Santa Maria de Viatodos, concelho de Barcelos, aos 07 dias do mês de Outubro de 1879, filho de Joaquim Gomes Pereira e de Leopoldina de Oliveira Amaral, comerciantes e moradores na dita freguesia de Viatodos, sendo seus avós paternos Domingos Pereira Barbosa e Florinda Correia da Costa e maternos José Joaquim de Oliveira e Ana Albertina do Amaral, todos da referida freguesia de Santa Maria de Viatodos.

Cedo deve ter ingressado no Seminário, pois com vinte e três anos, 05 de Outubro de 1903, celebrava a sua primeira missa.

O Padre Barbosa, como era mais conhecido, deixou-nos, para além de outros registos paroquiais, quatro pequenos cadernos de apontamentos. Pequenos só no tamanho pois sintetizam de forma muito sucinta o que foi a sua vida como Clérigo e cidadão sempre em defesa dos mais pobres e dos bens da paróquia assim como da comunidade em geral.

No primeiro caderno, temos os apontamentos de todas as missas celebradas e as intenções de cada uma até tomar conta da paróquia de Santa Eulália Arnoso em 1907. De referir que a primeira missa e a segunda celebradas em 5 e 6 de Outubro de 1902 foram ambas pelos seus avós e durante estes cinco anos o Padre Barbosa andou a celebrar por diversas paróquias vizinhas com incidência em Arentim mas também celebrou na Póvoa do Varzim.

No meio de tantas missas e intenções chamou-me a atenção para que sempre que ninguém marcava intenção ele celebrava pelos seus avós e também uma missa celebrada em 29 de Julho de 1903 pelo Leão XIII, penso que se referia ao Papa Leão XIII que tinha falecido em 20 de Julho deste mesmo ano de 1903.

No segundo caderno começa por:

“SANTA EULÀLIA D’ARNOSO”

“Tomei posse d’esta freguesia no dia 21 de Janeiro de 1907, numa Segunda-feira. Vim de vez no Sábado.

Vim com os trastes no dia 24 e voltei ainda para cantar a missa do Sr. Araújo”

Depois, dia após dia vai descrevendo o que de mais importante ia acontecendo, desde o seus primeiros Baptizados, Casamentos e Funerais assim como os direitos que lhe eram devidos se lhe entregavam ou ficavam em dívida.

Algumas curiosidades deste caderno:

07-03-1907 – celebrei a 1ª missa na Igreja do Mosteiro (celebrou depois quase todas as semanas)

15-03-1907 – emprestei 20:000 reis a Maria D, mulher do lugar da Veiga – pagou em 09-0-5-1907.

Nota - tem muitos empréstimos ao longo destes anos o que parece, que as pessoas quando estavam apertadas de dinheiro socorriam-se do Padre Barbosa e ele referia-se sempre ao seu pagamento, mas nunca aos juros o que deduzo que não havia e em alguns casos de pobreza perdoava a dívida.

Mesmo sem obrigação os paroquianos sempre davam frangos e ovos e outros

19-03-1907 – paguei ao caseiro do passal do Mosteiro, Manuel Machado 1.000 reis em                                 desconto da poda. No dia 30 de Abril mais 1.000 reis

08-04-1907 – 6º Baptizado, pagou galinha.

21-04-1907 – emprestei ao cesteiro1500 reis por três semanas.

23-04-1907 – emprestei a, do lugar do Olheiro desta freguesia se Santa Eulália 2000 reis                               (perdoei-lhe).

28-04-1907 – fiz o 8º Baptizado de Rosa, solteira na Igreja do Mosteiro – não pagou.

23-05-1907 – faleceu Custódio de 63 anos, Ofício 2.200 reis, direitos 265 reis, faltam os ovos.

01-07-1907 – Fui ao Mosteiro pela primeira vez buscar as esmolas do Santo e trouxe 3.980                          reis.

14-07-1907 – Deu-me a Sr.ª Rosa um salpicão, toucinho e azeitonas para os meus hospedes,                        Domingos Pinheiro e José Oliveira.

17-07-1907 – Deu-me a Sr.ª Rosa e o Sr. João um relógio de mesa.

19-07-1907 - Deu-me a Sr.ª Rosa 50 ovos

21-07-1097 – A Sr.ª Ana 20 frangos

27-07-1907 – Emprestei ao barbeiro de Nine 1.000 reis por três semanas

22-10-1907 – Faleceu o Manuel Machado, caseiro do passal do Mosteiro

08-11-1907 – Fui ao Mosteiro, trouxe pela segunda vez as esmolas do Santo Amaro – 2.000                           reis

11-02-1908 – Fui buscar o dinheiro da caixa do Santo Amaro, tinha 6.000 reis

16-02-1908 – do filho do caseiro a desconto da renda recebi 3.500 reis, podou também o                               passal. Perdoei o do tereno.

Continua a referir-se a diversos empréstimos em dinheiro e também à falta de pagamento dos baptizados, casamentos e funerais em especial o não pagamento de galinhas, ovos e outros bens.

 

Terceiro caderno

O Padre Barbosa, tinha uma certa veia poética que dedicava a certas cerimónias ou visitas e que depois de declamadas nessas cerimónias eram publicadas nos jornais de Barcelos e Famalicão em especial o jornal” A PAZ” e “BARCELENSE” onde se assinava como o “Solitário”:

 

 

Transcrição do livro na totalidade:

28 de Julho de 1921

Ao Sr. Arcebispo (na visita a Silveiros)

Publicado na Paz de 06-08-1921

 

Vinde, Senhor, à porção da vossa grei

Trazer-lhe a bênção de patronal amor

Vinde imprimir o vosso imortal candor

Nas ovelhas, filhas do Supremo Rei.

 

D’Ele sois vós representante puro

Que, como o Apostolo, nada temeis,

É porque, Vós muito bem o sabeis.

O amor de Deus é um porto seguro.

 

Nada no mundo vos tem feito tremer,

Onde tudo só é ilusão falaz

Para quem sabe que tem de morrer.

O Vosso porte respira a alma paz

Da consciência que não sabe temer,

Nem eu sei saudar-vos, ó Nobre Primaz.

 

Á memória imortal e saudosa do Sr. Conde D’Arnoso

(Ao seu Mestre filho e herdeiro do seu glorioso título)

Publicado no jornal “A PAZ” de 20 de Agosto de 1921

 

 

Morreu! Mas a sua glória é eternamente viva,

Será sempre uma lição para todos os portugueses.

Eu evoco a cada passo a sua figura altiva

Quando clamava: Justiça! Justiça tantas vezes.

 

Não temia, falava a linguagem d’coração fiel

E da amizade pura que vive após a morte

Não temia, embora ameaçado com ditos de bordel

Que tinham o condão de o tornar mais firme e forte.

 

Mataram o sei Rei, o seu grande e bom amigo,

A quem sempre serviu, sem nenhuma outra ambição

Do que o bem da Pátria e a grandeza da Nação.

 Tudo cair! Mas Ele erecto como um lorde antigo

Clamava: Justiça! Mas vendo tamanha podridão

Não podendo sofrer mais! matou-o o coração.  

 

 

No congresso das Juntas de Paróquia

(foi saudado o Sr. Dr. Magalhães Lima, como o grande cosmopolitano)

Publicado no jornal “A PAZ” de 27-08-1921

 

O Sr. Magalhães Lima,

Que toda a terra sublima

Com o seu saber profundo,

É como um luminar

Pendurado lá no ar,

A iluminar todo o mundo.

 

Eu até estou duvidoso,

E é-me muito custoso,

Crer que nasceu cá na terra,

Pois ele corre todo mundo

E anda sempre facundo

Com a juba em som de guerra.

 

Como há pouco o apelidaram,

E muito bem nomearam,

O grande Cosmopolitano;

Tanto pode ser português,

Como um bom Lord inglês

Ou até um castelhano.

 

Não, não nasceu cá na terra,

Ele é trombeta de guerra

Por toda a parte a onde vá;

E sendo cosmopolitano,

Pode ser deus Vulcano…

A lançar raios para cá.

 

Veio talvez do infinito,

Com o coração de granito,

Mas de melodia a sua voz;

E como cosmopolitano,

Pode ser algum cigano,

Dos lados de Badajoz.

 

Ao Dr. Afonso Costa

(foi saudado no congresso das juntas de freguesia como o mais esforçado organizador da administração pública portuguesa)

Publicado no jornal “A PAZ” em 10-09-1921

 

O Dr. Afonso Costa,

Que de Ligúria não gosta

Porque é nome de Santo,

E ele os santos odeia

E os meteria na cadeia

Se tivesse tempo para tanto

 

Lá se encontra em Paris,

Com um pouco de verniz

De grande diplomata

A representar Portugal

E não há outro igual

Para este país patarata.

 

Ele é o maior estadista,

Ele é o grande tratadista;

O dador de muitas leis;

É a maior cerebração,

Doctor da separação

Que nem fizeram os Reis!...

 

Mas há pouco um congresso

(Que fez um grande sucesso)

Das juntas de freguesia,

Chamou-lhe o organizador,

E o maior administrador

Das terras de Santa Maria!!.

 

Como ele não há igual

Em terras e Portugal,

Porque tudo bem ordenou.

Mas apesar de dura fibra

Respondeu há pouco: Livra

E fugiu do que organizou!...

 

A alguém que lhe perguntava

Se ia embora ou ficava,

Pois é ele o único ser

Que a isto pode dar brilho,

Respondeu: é um sarilho

Pôs-me os miolos a arder.

 

No Eremitério

Publicado no jornal “A PAZ” de 17-09-1921

 

Ouço o piar doloroso e triste

Da ave que se diz anunciar a morte,

Oh! Se n’isto alguma verdade existe

A quem tocar essa dura sorte!

 

Agoireiro mau, foge para longe,

Vai e não voltes, e não cantes mais;

Eu vivo aqui, verdadeiro monge

Na solidão, a soltar meus ais.

 

Vai! Do teu cantar não deves ter vaidade,

Os meus ais, aumenta esse cantar funéreo,

E torna mais viva a minha saudade

Basta-me ali perto ter o cemitério,

Leito de mortos, que, com tanta crueldade,

Me fala sempre em frente ao eremitério.

 

Viva Portugal! (aos aviadores Portugueses)

Publicado no jornal “A PAZ” de 17-06-1922

 

 

Não morre a fama sem esta Pátria bendita,

Ela se exalta pelos feitos heroicos,

De dois filhos, que na hora da desdita,

Alevantam com a coragem de estoicos!

 

Coragem de estoicos! Tem-na por Portugal,

Avisão e sonho da Pátria engrandecida;

Ao menos o seu nome tornado imortal,

Vale para eles mais do que a vida!

 

É seu timbre a coragem e a intrepidez,

 Ciência e fé são farol que os conduz,

Irmanado assim a ciência com a Cruz!

Pátria, Ajoelha! Porque o nome português

Ainda não morre, é feito imortal

Por Gago Coutinho e Sacadura Cabral!!

 

No mês de Jesus

Publicado no jornal “A PAZ” de 24-06-1922

 

 

Coração Santo, tu reinarás,

Dum rei assim o mundo precisa,

Que reine, que mande, e dele serás

O Salvador, que já se divisa.

 

Ter vosso encanto, sempre serás,

Porque a tua Lei é Lei do Amor,

Os que a seguem têm sempre a paz,

E origina-se em santo temor!

 

Manda, Senhor, no meu coração,

Impera também, no do meu próximo,

Reina, Senhor, em toda a nação

Portugal foi e será sempre vosso,

A estrela é d’um hino um padrão,

Sede, perverso, ó Salvador Nosso.

 

Portugal (única consolação)

Portugal outrora foi rico e admirado,

O seu nome querido em toda a terra,

Hoje, qual velho pedinte esfarrapado,

Tem um aspecto tão triste, que terra!...

 

 Mas, Portugal não chores, (que ventura!)

O teu nome de outrora, revivei,

Dois legítimos filhos teus, numa aventura,

Te exaltaram nas viagens pelo céu!

 

Noutro tempo te exaltaram pelos mares,

O teu nome, então, ao longe se estendeu

Como hoje nas viagens pelos ares.

A tua riqueza quase toda se comeu!...

Abundância já não há nos pátrios lares,

Só a tua glória, Portugal, não morreu!...

Publicado no jornal “A PAZ” de 01-07-1922

 

Sofrimento por amor (ao Sr. Abade de Nine

Publicado no jornal “A PAZ” de 22-07-1922

 

Senhor, que sofreste pregado numa cruz,

Patíbulo infame ao crime destinado,

E Vós tão bondoso, tão santo, oh Jesus,

Tão puro e inocente foste condenado!

 

Sofreste, Senhor, a tão grande crueldade,

Duma sentença iniqua e dura ingratidão,

Mas, Vós tão paciente e tão cheio de bondade,

Para quem, Vos matou pediste o perdão!

 

Sofrimento do Amor foi o Vosso, oh! Jesus,

Damos a Vossa vida, damos a Vossa morte,

Lá no cimo do calvário, na Vossa amada Cruz!

Padecer na terra é a nossa triste sorte,

Sofrer por Vós é caminho que ao céu conduz

Quero por Vós sofrer e por Vós eu serei forte.

 

Sonhos

Publicado no jornal “A PAZ” de 05-08-1922

 

Como a pomba branca e linda,

O céu voa a lua cheia

Dá-me isto saudade infinita

E coração tudo me anceia

 

Saudades tenho no peito

Por noites que nunca mais vi!

Agora. Oh sonho desfeito,

Não volta o que eu senti.

 

Numa noite assim formosa

Há branda luz do luar,

Como um sonho vaporoso,

Vi formar-se lá no ar

Uma imagem cor-de-rosa,

Delírio!... estava a sonhar!...

 

Esperança e resignação

Publicado no jornal “A PAZ” de 12-08-1922

 

Sonhos suspeitos: é, a vida,

Assim se passam meus dias;

Desejos: “caimera” sentida,

Sonhos, tudo são fantasias!...

 

Esperanças de bem viver

Já neste mundo não tenho,

Estou sempre, sempre a ver,

Com todo o cuidado e empenho.

 

Que tenham realização,

Mas por muito que eu espere

Além de esperança não vão;

E para que eu não desespere

A Deus levanto o coração

E aceito o que Ele quer.

 

O Cábula

Publicado no jornal “A PAZ” 19-08-1922

 

És estudante e não estudas,

Assim estudante não és,

E se de costume, não mudas

Para quê a capa ao través?

 

É a capa dum estudante,

Mas um estudante não cobre,

É a mortalha dum tunante,

De capa… só tem o nome.

 

Vê que estás a perder-te,

E é de louco ser requinte

Se não tratas de converter-te

Estuda e sê bom ouvinte,

De contrário estou a ver-te

Com capa e mão de pedinte.

 

Cantigas à democracia

Publicado no jornal “A PAZ” de 23-09-1922

 

Ser democrata hoje em dia

É contra o que deve ser

Para mim… a boa fatia…

O povo… deixá-lo morrer.

 

Enche-se a boca de Amor

Perante o povo basbaque,

Mas não há pena nem dor

Desse povo pôr a saque!

 

O povo dá o poder

Para o país lhe governar

Eles tratam de escolher

Quem mais o há-de roubar.

 

Grita o povo a cada passo:

Viva a democracia!

E não vê que é mais um laço

Que lhe apressa a agonia.

 

Ó povo que tolo és!...

Dás vivas a quem te mata!

Morrendo não há mais Zés…

E cá… fica o democrata.

 

A maior ingratidão

Publicado no jornal “A PAZ” de 07-10-1922

 

Senhor, que tudo, tudo criastes:

O céu e a terra, e o mar,

O sol, as estrelas a brilhar,

E para isto, Vós, só faltastes!

 

Criastes tudo, Senhor, seis dias

Só Vos bastou para tanta causa,

E agora em Vós tudo repousa:

Ordenado, isento das anarquias.

 

Tudo obedece a Vós Senhor;

Só o homem não quer a Vossa lei,

E Vós fostes dele o criador,

Dele Vós sois o supremo Rei,

Somente para ele o Redentor,

E despreza-Vos! Porquê? Nem sei!

 

A minha Gata

Publicado no jornal “A PAZ” de 21-10-1922

 

Tenho uma gata que é mansa,

Mais mansa não pode ser,

Tem gemidos de criança

Até eu nos braços a ter.

 

Tem garras, mas não me fere,

Tem dentes e não me morde,

Ela tanto bem me quer

Que nunca daqui me foge.

 

É melhor que certa gente

(gata assim ninguém tem)

Ela não me espeta o dente

Por isso lhe quero bem.

 

Ela não é lambareira

Só come o que eu lhe dou,

Põe-se sentada à lareira

E nunca em nada tocou.

 

Há pouco teve uns gatinhos,

E mãe também sabe sê-lo:

Castiga-os, fá-los mansinhos,

E de mãe também sabe sê-lo.

Mal lhe fogem, ela mia,

Põe-se logo a chorar,

E seja noite, seja dia,

Não deixa de os procurar.

A certas mães dá lição,

Lição de bem ensinar

Tem afeto o coração

Enquanto os não encontrar!...

 

Sic transit…

Publicado no jornal “A PAZ” de 04-11-922

 

Morrer é triste, é deixar tudo,

É partir para não mais voltar,

É ficar inerte e ficar mudo,

Não ver, não ouvir e não falar.

 

Tudo o que no mundo foi sonhado,

Um alto pedestal de grandeza,

Tudo é desfeito e aniquilado…

Os prazeres, honras e riquezas!

 

Parte o homem para a eternidade,

Aqui a vida lhe foi só ilusão,

Dele só fica leve saudade.

Depois nem isso… e a paixão,

Anuncia viva de felicidade,

Tudo vai… e cabe num caixão!

 

A morte do cabula

(A propósito do soneto “O cábula)

Publicado no jornal “A PAZ” 18-11-1922

 

Já não és cabula, muito bem,

Agora estudante já és

Podes para o ano que vem

Cobriste-te da capa ao través.

 

Já é a capa dum estudante,

Porque um estudante já cobre

Foi-se a mortalha de trinante

E a capa já tem o seu nome.

 

A cabula estava a perder-te,

Mas a cabula morreu de dor,

Que é sinal de bom converter-te

Estuda agora com amor,

Porque assim, estou já a ver-te

Com a capa e mão de doutor.

 

Na Franqueira (impressões…)

Publicado no jornal “BARCELENSE” de 08-07-1933

 

Um dia, ao fim da tarde, quase às trindades,

Subi a um alto monte, da Mãe Santíssima;

Na linda e velha ermida, havia claridades

Do sol moribundo, luz branca suavíssima! …

 

Sítio ermo, silencio sepulcral …profundo!...

Nada se ouve… apenas a brisa a perpassar,

Está-se muito alto, desviado do mundo,

Mas vê-se horizontes largos… ao longe…o mar.

 

Nas ladeiras do monte, vê-se só pinhais,

A seguir …campos, matizados de casais,

Ao norte um rio e cidade, ali à beira.

Vê-se horizontes de magia, muito belos!...

O rio é o Cavado, a cidade é Barcelos,

A montanha, tão formosa, é a Franqueira.

 

No cinquentenário de V. B de Barcelos

Publicado do jornal “BARCELENSE” em 05-08-1933

 

Despreendimento, valor, temeridade,

São sentimento e actos de heroísmo

De raros corações, na actual sociedade,

Neste tremendíssimo mar de egoísmo.

 

Mas do meio do amor próprio, a ruim paixão,

Que se estadeia no mundo embora vencida

Surge alguém que por único brasão

Dar pelos outros, sem interesse, a sua vida.

 

É o bombeiro, soldado do bem chamado,

Porque só para o bem ele foi fadado

O bem pares, são todos os seus antilos

 É delegado desprendido, tem erário,

Porém, nesta data, no seu cinquentenário

Eu saúdo os voluntários de Barcelos.

 

A Exma. Sr.ª D. Maria José Novaes

(Na glorificação da sua excelsa bondade)

Publicado no jornal “BARCELENSE” de 12-08-1933

 

N’este instante desejava ser pintor,

Mas pintor subtil e muito delicado,

Para em traços lindos, n’um belo quadro,

Fixar do Céu e da terra o grande amor.

 

Tracejava, então, na tela uma flor

Com todas as cores belas da bondade,

Todos diriam: esta flor é a Caridade,

Virtude chamada o grande amor.

 

Mas não se precisa de nenhuma tela,

Porque alguém encarna pura beleza

Esta virtude, a maior entre os mortais;

Pois espalhou-a em frutos muito belos,

Na formosa e linda cidade de Barcelos,

A gentil Dona Maria José Novais

 

No Terceiro Caderno, tem o apontamento das missas celebradas de 1938 a 1941 o que se deduz que haveria outros cadernos com o mesmo tipo de apontamentos ao longo da sua vida sacerdotal.

Para além destes cadernos tinha outros para cada tipo de actividade, como o registo de esmolas da Igreja, registos e de despesas e receitas do culto.

Quando em 1907 o Padre Barbosa toma conta da paróquia as Irmandades e Confrarias de Santa Eulália Arnoso e São Salvador do Mosteiro de Arnoso, esta já anexada a Santa Eulália, mas continuavam a ser administradas separadamente, tinham muitos valores em especial em empréstimos a famílias destas freguesias, mas também de outras freguesias circunvizinhas, tudo com escritura e hipoteca de bens feitas no tabelião da comarca.

A maior parte destes empréstimos, conforme iam sendo recebidos assim como os juros foram aplicados na construção do cemitério (na altura paroquial).

Mas em 1910 com a implantação da República e o decreto-lei da separação das Igrejas do Estado este, nomeia uma junta da paróquia (fig. 0 e 00) e  confisca todos os bens móveis e imóveis das Igreja, quer os bens de sustentação do pároco e culto, mas os próprios bens de culto, como cálices, cruzes, paramentos, etc. (Fig. 1 e 2)

Sendo de referir que quando o Chefe da Fazenda, veio confiscar os bens , já inventariados pela nova junta da paróquia, ficou como seu fiel depositário o Padre Barbosa, mas este recusou assinar a relação de bens por não concordar:  “ declarou não ser intuito seu desacatar a autoridade civil, mas cumprindo uma obrigação do seu cargo e ministério paroquial, afirma que à Igreja pertence a posse, uso, guarda e administração dos templos, alfaias, bens móveis e imóveis destinados ao culto católico e sustentação dos seus ministros e que por isso protesta solenemente contra o inventário que vai proceder-se, considerando-o como uma violência atentatória  dos legítimos direitos da Igreja” (fig. 3, 4 e 5)

A comissão administrativa, nomeada pelo governo de então, geriu os dinheiros dessas confrarias e irmandades pelo menos até 1921, sendo as suas receitas os juros desses empréstimos e o valor dos empréstimos que iam sendo amortizados, no acabamento do cemitério e no arranjo de caminhos, tendo o pároco sido afastado da referida Junta da Paróquia. (fig. 6 e 7)

Só em 1926 com o decreto-lei nº 11887 de 6 de Julho, são restituídos os bens novamente à Igreja o que no caso por requerimento do Padre Barbosa de 6 de Maio de 1929 o estado devolve os bens através de publicação em Diário da República de 24 de Maio de 1930. (fig. 8 e 9)

Só em 23 de Junho de 1928 é que foi criada uma nova Fabriqueira denominada “Corporação Fabriqueira Paroquial da freguesia de Santa Eulália de Arnoso” tendo como associados: Padre José Pereira de Oliveira Barbosa, Presidente, António José Gomes, Secretário, José Gomes Pereira, Tesoureiro e os vogais: António de Oliveira, Francisco Ferreira, Camilo da Silva e Sá Oliveira e Daniel da Costa Ferreira. (fig. 10,11,12 e 13)

Em Abril de 1911 assina e fecha todos os livros em uso na paróquia de Santa Eulália e S. Salvador do Mosteiro, dando assim cumprimento ao decreto lei do Registo Civil de 18 de Fevereiro de 1911, que mandava entregar os livros de registos paroquiais no arquivo distrital tendo este de passar cópias dos últimos registos. A partir desta data os novos registos paroquiais estão ainda na posse das paróquias o que já não faz sentido.

Em 1955 o padre Barbosa foi substituído nas suas funções primeiro pelo Padre Aniceto Martins Oliveira Cardoso de Cunha e depois pelo Padre Francisco Ribeiro Pinto de Cambeses devido a doença que se prolongou até à sua morte em 15 de Fevereiro de 1957.

(Tenho ainda recordações de os paroquianos o irem buscar à residência e o transportarem em braços porque não conseguia andar e de celebrar missa sentado num banco em frente do altar).

Registo de Óbito: Às vinte e três horas do dia 15 do mês de Fevereiro do ano de mil novecentos e cinquenta e sete, no lugar da Igreja desta paróquia de Arnoso Santa Eulália, arciprestado de V. N. de Famalicão da Arquidiocese de Braga, faleceu tendo recebido os sacramentos da Santa Igreja que lhe foram administrados por mim Padre Francisco Ribeiro Pinto, pároco de Cambeses, um indivíduo do sexo masculino com o nome de Padre José Pereira de Oliveira Barbosa, pároco desta freguesia de setenta e sete anos de idade, solteiro, natural de Viatodos, concelho de Barcelos e residente nesta de Santa Eulália de Arnoso na residência paroquial. Filho legitimo de Joaquim Pereira Barbosa e de Leopoldina de Oliveira Amaral. Foi sepultado catolicamente no cemitério desta freguesia aos dezasseis dias do mês de Fevereiro de mil novecentos e cinquenta e sete. E para constar, foi lavrado, em duplicado, este assento que assino.

                                                                                                                                                                    O Pároco, Francisco Ribeiro Pinto

 

Fig. 01 


 Fig. 02


Fig. 03

 


 Fig. 04


Fig. 05


Fig. 06


Fig. 07

 


Fig. 08 e 09 

  


Fig. 10

Fig. 11


 Fig. 12


Fig. 13

 

 

Fig. 14

 


Fig. 15

 

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