Enterramento dos mortos e a construção do cemitério

 Enterramento dos mortos e a construção do cemitério

 paroquial de Santa Eulália de Arnoso

 

 

Nos livros de registo de óbitos da paróquia de Santa Eulália de Arnoso, em que o primeiro regista os óbitos de 1638 a 1681, em nenhum dos registos é especificado onde foi enterrado, se dentro da antiga e pequena Igreja ou se no adro à volta da Igreja, livro este assinado pelo Pároco João Rodrigues de Araújo.

O segundo livro de registo de óbitos compreende as datas de 1681 a 1740 e até ao ano de 1714 continua a não mencionar o local do enterramento. Inicialmente continua a ser assinado pelo Pároco João Rodrigues de Araújo até ao ano de 1786 e depois de pequeno interregno de um ano é assinado pelo Pároco encomendado João Gomes. Em 1787 toma conta da paróquia o Vigário Manuel Machado Coelho, que só em seis de Maio começa a registar o local da sepultura[1], que como se pode verificar os registos só eram laçados no livro depois e todos os desejos do defunto serem cumpridos, tais como os ofícios e até quem era o responsável por os fazer cumprir e até quais os seus herdeiros. É normal, verificar que em muitos registos o defunto deixar ofertas para que no dia do seu enterro e ofícios se distribuam cereais, pão e vinho aos pobres que assistam às cerimónias.

A partir de 1711, passamos a saber em que local eram sepultados os mortos e por esta altura uns eram dentro da Igreja e outros no adro, há volta da Igreja quase sempre junto às frestas ou janelas da Sacristia, da capela-mor e da Igreja assim como de um lado e de outro da porta de entrada. e junto à porta da travessa. Também há registos de enterramentos junto à sacristia e até junto da residência paroquial.

Em 1728 toma conta da paróquia o Vigário Gonçalo Rodrigues Coelho, e aqui ficamos com a ideia de que no interior da Igreja existiriam duas filas de sepulturas de cada lado da porta principal, e junto aos altares de S. Sebastião e S. Bartolomeu[2]. Não sabemos, nem encontramos nada sobre como seria a estrutura física do edifício da Igreja nessa altura[3]. Mesmo assim, continuou a serem enterrados em alguns casos no adro da Igreja o que aconteceu até ao fim do século XIX.

Em 1737 toma conta da paróquia o Vigário Paulo da Silva Cabral e em muitos dos seus registos está omisso o local da sepultura, quase sempre no registo de defuntos pobres e noutros registos diz apenas que se sepultou na Igreja. O Vigário Valério da Silva segue os mesmos passos do anterior até à sua saída em 1767. Segue-se o Vigário Tomaz de Araújo que nos seus registos refere sempre “foi sepultada dentro desta Igreja”, faleceu em 16-06-1786 e foi sepultado na capela-mor desta Igreja de Santa Eulália de Arnoso[4]. Os registos vão melhorando pois segue-se o Vigário Boaventura José Rebelo e este para além de descrever o local do enterro, também menciona a data deste assim como ia envolta, umas apenas envoltas com um lençol e outros envoltos em um hábito de determinada ordem religiosa ou Santo.

Em 1823, já como pároco o Vigário Manuel de Santa Catarina Pinto, para além do registo de óbitos é criado um registo do local onde se enterrou. Este registo dá-nos uma ideia muito precisa da forma física da Igreja nessa altura, que para além de Igreja era também o cemitério da mesma. Assim a Igreja teria apenas dois altares laterais, um com a imagem de S. Sebastião e outro com a imagem de S. Bartolomeu (imagens que ainda hoje se encontram na Igreja) e dentro de cada um haveria uma sepultura (fig. 01). Na parte da assembleia havia o corredor central a que nessa altura chamavam carreiro e de cada lado haveria duas filas de cinco sepulturas (fig. 02 e 03) e junto à pia Baptismal duas sepulturas para Anjos (menores) e mais uma do lado contrário junto às escadas que davam acesso ao coro (fig. 04). Este registo terminou em 1859 e por determinação do Decreto de 19 de Agosto de 1859, que vem regular e harmonizar os registos paroquiais no caso dos registos de óbitos passam a ter numeração anual e para além do nome do conjugue, no caso dos casados ou viúvos também passa a constar o nome dos pais.

Já em 1835 pelo Decreto de 21 de Setembro, referendado por Rodrigo da Fonseca Magalhães, que mandou que se estabelecessem cemitérios públicos em todas as povoações do País e cominou penas graves ao pároco ou qualquer eclesiástico beneficiado que consentisse enterramentos dentro dos templos, …  (fonte: dre.tretas.org)

 A verdade é que em Santa Eulália de Arnoso e possivelmente em muitas das paróquias isso não aconteceu, bem pelo contrário. Em 1894 depois de obras de ampilição da Igreja paroquial, (1885) aparece um novo registo de sepulturas dentro da Igreja em filas de oito a contar do púlpito para a porta da travessa no total de 47 sepulturas e que serviu de registo até ao ano de 1911.[5]

Isto deve-se às obras de ampliação e restauro da Igreja e residência iniciadas em 1884, mas que se prolongaram até ao ano de 1906, embora a data que se encontra por cima da porta principal da Igreja nos remeta para o “ANNO de 1885” que se deve referir à construção de paredes pois em 1884 foram lançados no livro de contas da paróquia a quantia de 935.000 reis para obras na Igreja. Não sabemos para que lado a Igreja cresceu. É natural que tenha crescido na parte da assembleia assim como para o lado da capela-mor, isto porque a data por cima da porta principal leva a querer que aquelas paredes foram alteradas assim como as paredes da nova torre[6] estão integradas na da Igreja. Também nos antigos registos se fala em uma fresta no topo da capela-mor e hoje nesse lugar tem apenas um óculo redondo.

No registo acima mencionado, foi feito o primeiro funeral de uma criança em 30-12-1894 e o último em 20-02-1911.

Na Igreja anexa do Mosteiro de Arnoso o último enterro foi em 03-10-1875. A partir desta data passaram a ser sepultados na Igreja de Santa Eulália de Arnoso.

O cemitério paroquial começou a ser pensado em 1881. Em reunião de 24 de maio de 1891 da junta da paróquia o presidente informa que recebeu um ofício do Administrador do concelho com instruções correspondentes ao cemitério paroquial.

Segue-se as verbas disponibilizadas pela Junta da Paróquia para a construção do cemitério paroquial[7]:

1881      P/ ajuda da construção do cemitério                                     20.000 R

1882       P/ ajuda da construção do cemitério                                    20.000 R

1883      P/ ajuda da construção do cemitério                                     20.000 R

1884      P/ ajuda da construção do cemitério                                  100.000 R

1885      P/ ajuda da construção do cemitério                                  150.000 R

1886      P/ conclusão do cemitério                                                     125.000 R

1887      P/ construção do cemitério                                                   125.000 R

1889       P/ construção do cemitério                                                  200.000 R

1901      P/ cemitério                                                                                10.000 R

1912      C/ os muros de vedação do cemitério paroquial               200.000 R

Total                                                                                                           840.000 R

1913       C/ os muros de vedação do cemitério paroquial                   30$00

1913      Gradeamento e Portão do cemitério                                         70$00

1918      Arborização do cemitério                                                            20$00

                Pintura do gradeamento                                                            12$00

                Paredes                                                                                           4$00

1919      Pintura do gradeamento                                                               6$00

                Muros                                                                                              8$00

Total                                                                                                             150$00

Depois da implantação da república em 1910 o cemitério foi acabado à custa dos saldos existentes das confrarias extintas. Da extinta confraria do S. Sacramento do Mosteiro 200.000 R para os muros (ficaram ainda 531.400 R gastos posteriormente na freguesia, da extinta confraria de N. S. do Rosário do Mosteiro 100.000 R para muros e grades e havia ainda 21.000 R da extinta confraria de S. Sebastião de santa Eulália de Arnoso.

Sabemos por acta da Junta da paróquia que o terreno para a construção do cemitério foi doado pela casa de Santa Baia e pela casa do Machado tendo por isso as campas da primeira fila ficado do lado esquerdo para a casa de Santa Baia e do lado direito para a casa do Machado seis campas de cada lado.

O registo de quem era sepultado em cada campa a partir de 1910 passou a ser da responsabilidade das juntas de freguesia. No entanto não encontramos qualquer livro de registo na Junta de Freguesia, mas apenas actas da venda de terreno para sepulturas.

Fontes[8]

 

 

 

 

 

 

 

[1] Aos seis dias do mês de maio de mil e sete centos e onze; faleceu com todos os sacramentos, Maria Francisca; mulher de Sebastião Lopes da Quintam; não se fez por dizer não hera necessário, senão que lhe fizessem o uso da Igreja; que sam três offícios cada hum de dez padres. Foi sepultada nesta Igreja e tem satisfeito a presente: mês e anno; seu marido Sebastião Lopes e por verdade me asigno aos vinte e sinco de maio de mil e sete centos e doze.

                                                                                                                              O Vigário Manuel Machado Coelho

 

[2]Maria Barbosa viúva que ficou de Pedro Rodrigues do lugar da Carvalheira desta freguesia de Santa Eulália de Arnoso faleceu da vida presente aos sete dias do mês de Outubro do ano de sete centos e trinta de huna doenza dilatada na qual muitas vezes foi confessada, comungada e ungida… foi sepultada dentro na Igreja na sepultura abaixo do taburno do altar de São Sebastião pegado à sepultura do meio…

O Vigário Gonçalo Rodrigues Coelho

[3] Brás Francisco viúvo do lugar do Folam desta freguesia de santa Eulália de Arnoso, faleceu da vida presente aos vinte e hum dias do mês de Março do ano de sete centos e trinta e hum… foi sepultado na terceira campa da parte do sol da ordem de campas, abaixo da ordem de campas da porta da travessa…

O Vigário Gonçalo Rodrigues Coelho

[4] Thomaz de Araújo, Vigário desta Igreja de santa Eulália de Arnoso, faleceu da vida presente com todos os sacramentos da penitencia sacro viatico, e extrema unção, aos dezasseis dias do mês de Junho do ano de mil e sete centos e oitenta e seis. Foi sepultado dentro da Capela-mor envolto como sacerdote que era com estola, manipulo e casula de damasco de ceda roxa…

 

Encomendado Domingos José Ribeiro

[5] As sepulturas começam a contar-se do lado do altar do S.S. Coração de Maria. A que fica por baixo do púlpito tem o nº 1 e assim se vão contando vindo para o lado da porta travessa.

Mapa das Sepulturas.

 

[6]  Aos oito dias do mês de fevereiro de mil oito centos e setenta e nove, nesta freguesia de santa Eulália de Arnoso e sala das sessões… afim de rever e inventariar todos os paramentos pertencentes à mesma freguesia e todos os mais objectos pertencentes à mesma parochia e Igreja, a qual se compõe com o altar-mor e dois laterais…um turrião e sino.

 

[7] Aos vinte e quatro dias do mês de maio do ano de mil oito centos e um, nesta freguesia de Santa Eulália de Arnoso, e sala de sessões da junta da Parochia da mesma onde estava, presente o Presidente e os vogais a baixo assignados. Eram dez horas da manhã elle presidente declarou aberta a sessão.

Pelo dito Presidente foi dito que havia recebido um ofício do Excelentíssimo Administrador do Concelho, para as instruções com respondentes ao cemitério parochial desta freguesia…

[8] Arquivo paroquial de Santa Eulália Arnoso

  Tombo.pt (registos paroquiais portugueses para genealogia)

  fonte: dre.tretas.org

 


Fig. 01


Fig. 02



Fig. 03



Fig. 4


Fig. 5

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