Castro do Monte das Ermidas

 

Castro do Monte das Ermidas

 

Quando nos anos setenta, num Domingo à tarde nos reuníamos como habitualmente, eu o meu tio Amadeu da Cunha Pereira e o nosso Primo António da Silva Pereira estudante de direito na Universidade de Coimbra, depois de algumas conversas, como o que fazer? o António Pereira lembrou-se de que o Pai, Davide Gomes Pereira, GNR reformado, lhe dizia que no Monte da Ermida ao cimo das caleiras existiam umas paredes de casas de povos antigos. Logo ficamos de orelhas afiadas e que só poderia ser de algum Castro e, eu e o meu tio que nunca tínhamos ouvido falar de tal coisa dissemos logo, vamos procurar. Começamos por ir até ao lugar das Cruzes onde sabíamos que havia umas caleiras de granito que transportavam a céu aberto água para a quinta de Vilar D’Este por sinal a casa de onde era descendente a minha avó materna Thereza de Oliveira Campos, mais tarde esta casa passou a ser conhecida por casa do brasileiro da quinta. Mas voltando ao assunto, lá encontramos as caleiras e seguindo sempre as mesmas fomos até à mina onde nascia a água, uns de um lado e outro do outro lado, sempre atentos a ver se encontrávamos alguns vestígios. Mas nada. Continuamos a subir o monte por entre mato e fetos e por ali andamos às voltas quase toda a tarde. Até que perto da noite, finalmente encontramos debaixo dos fetos e mato mesmo no cimo do monte as tais pedras que pouco se viam, pois estavam soterradas. Vimos depois que no meio dos fetos e mato havia muitos cacos de barro grosseiro, uns de restos de telhas e outros de louças.

Nesse tempo no topo do monte ainda não havia vegetação de grande porte como hoje pinheiros e eucaliptos, mas apenas mato, giestas e fetos na primavera o que daquele lugar se conseguia ver muito bem os montes ao redor, como o Sameiro, talvez até o monte de Briteiros, dizia o Silva Pereira já naquele tempo com uma grande citânia descoberta. O Silva Pereira, com mais conhecimento no assunto lá nos ia explicando como os povos daquela época viviam e como se comunicavam e que por isso era importante que se vissem uns aos outros.

Tudo ficou no nosso segredo, até que com a chamada revolução de Abril em 1976 é fundada a Associação Desportiva e Cultural de Arnoso Santa Eulália. Durante os primeiros anos os sócios, amigos e dirigentes andaram mais preocupados com o arranjar infra-estruturas para a prática desportiva e cultural em especial ring para a prática de futebol de salão (ainda se jogava com tabelas) e o salão polivalente. Por isso só em 1981 em reunião da Direcção se falou na existência do referido Castro do Monte das Ermidas e se criou uma secção de arqueologia para tratar de ver o que de facto havia quer no Castro, no Buraco do Olheiro e outros locais da freguesia. Esta comissão falou com a Câmara Municipal informando da existência do Castro. Mas como os responsáveis camarários não mostraram muito interesse, resolveu-se num Sábado à tarde, munidos de pás e picaretas ir ao Castro e eu lá fui indicar o local e escavamos um pouco, cerca de um metro entre duas paredes e paramos porque aquele serviço não era para nós e só queríamos chamar à atenção dos responsáveis da Câmara.

A ADC enviou à Câmara através do oficio nº 41/81 de 23/03/1981, 35 pedaços de cerâmica (havia muitos espalhados pelo chão, não era necessário escavar) provenientes do Castro do Monte das Ermidas.

É aqui que se oficializa o nome de “Castro do Monte das Ermidas” até então só conhecido por muito pouca gente.

 A reação das entidades camarárias foi precisamente a que pretendíamos, fazendo na altura saber que não devíamos mexer no monte, fazendo até um comunicado à imprensa, dizendo que uns andavam a estragar o Castro, que eles nem sabiam que existia. A tal ponto que a ADC fez um segundo oficio a informar qual a formação dos elementos que compunham a secção de arqueologia, pois nesta havia pessoal formado em história e estudantes do Ensino Superior. Claro que a intensão era apenas pressionar a Câmara para que se interessasse pelo Castro.

De pouco valeu. Só em 1983 (Julho/Agosto) é que a Câmara desloca uma equipa a fazer umas escavações, aparecendo aquilo que hoje quase se não vê e outras que depois foram tapadas novamente, solidificaram as paredes e assim ficou até hoje.

O processo arrasta-se e só em 1990 é que o espaço é classificado como “Imóvel de Interesse Público” pelo Decreto nº 29/90 (DR, I série de 17/07/1990) e se hoje consultarmos a Wikipedia verifica-se que já em 2007 alguém escrevia “ultimamente o Castro tem-se deteriorado, pela erosão e pelo abandono a que foi votado”. Abandono de quem?

Situado no monte das ermidas (não sei porquê o nome? talvez porque por ali houvesse alguma ermida, nos dias de hoje apenas sabemos que em Santa Eulália havia um nicho de Nossa Senhora do Fastio, isto no caminho de Santiago que ligava a Póvoa do Varzim a Braga, hoje a imagem está na capela, construída em 1882 com as esmolas do nicho e outras e na parede desta Capela está uma pedra com uma cabeça, que ao que parece será da época pagã) muito perto do lugar de Palhares, da freguesia de Jesufrei, “lugar este também citado na lenda do Buraco do Olheiro que fica nas quedas do rio Guisande, outrora (ver sensos de 1758) apenas regato desde o buraco do Olheiro até à foz no rio Este) e seria toda esta encosta norte do monte das ermidas e prados do rio Guisande que alimentavam a população do Castro. Ainda hoje existe vestígios de calçadas nesta encosta do monte.

Claro que para termos certezas, há que explorar e por a descoberto toda a extensão do Castro, basta que para isso o poder politico (juntas de freguesia, câmara e governo passem a incluir este espaço nas suas agendas.

Mesmo estando o espaço nas condições que está, há muitas pessoas, em especial das freguesias circunvizinhas que passam pelo Castro, quer em passeios quer até para mostrar aos mais novos, penso que aos fins-de-semana há sempre alguém que por ali passa como eu o fiz mais uma vez este Domingo 17/05/2020 e que possivelmente ficam tão tristes com o abandono do local como eu fiquei. Todos sabemos que a Cultura não dá votos e os votos é que se contam no fim dos mandatos políticos.

Mas, como diz o povo “a esperança é sempre a última a morrer ou enquanto há vida há esperança” esperemos que valha a pena.

José Campos


Castro das Ermidas


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