A Vida militar de José Gomes Pereira

 A vida militar de José Gomes Pereira


José Gomes Pereira foi combatente da Primeira Guerra Mundial, tendo nos deixado a descrição pormenorizada dos seus dias, que passou em Portugal, mas especialmente no tempo em que esteve ao serviço em França integrado na 1ª Companhia do 1º Batalhão de Infantaria nº 8 de Braga o qual fez parte do CEP (Corpo Expedicionário Português) ver “A vida militar de José Gomes Pereira

No Arquivo militar, referente aos combatentes da 1ª Grande Guerra encontramos apenas quatro registos. Fig. 1 a 4

 

Fig. 01


Fig. 02


Fig. 03



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Vida Militar

De

José Gomes Pereira

 

15 de Janeiro de 1915 a 28 de Maio de 1919

 

Passado para computador

Em Novembro de 2018 por:

José Campos Ferreira e Lília Silva Campos

 

 


 

Dia em que assentei praça em Artelharia 5 (Viana do Castelo)

 

No dia 15 de Janeiro de 1915 ao romper do dia fui à missa ao antiquíssimo Mosteiro de Santo Amaro e de novo voltei a casa para almoçar. Fui logo directamente à estação de Nine, atravessando o arraial do Santo Amaro, e como encontrei o Daniel Ferreira, me acompanhou até à estação. Segui para Viana do Castelo em companhia do Francisco Pinheiro que também ia com o mesmo destino para Artelharia 5. Chegamos a Viana, terra que para nós era tão desconhecida, seguimos através da cidade indo ter à Praça da República aonde preguntamos pelo quartel. Lá fomos. Quando entramos à porta d’armas por um túnel e vimos uma grande parada, cercada por soberbas muralhas, aonde apoiadas algumas baterias, ficamos um pouco admirados. Fizemos a nossa apresentação na secretaria aonde me destinaram logo para a 3ª Bateria dando-nos um bilhetinho para irmos ao quarteleiro receber cada nosso fato novo.

Quando o estava vestindo sempre me lembrei que ia à tal romaria de Santo Amaro, mas apenas com o sentido que era muito distante. Aí fomos continuando um pouco admirados com aquelas coisas que nos eram estranhas. De noite, uma estropiada daquelas cavalariças, que …                                                                                           

… que a gente nem apenas podia dormir. De manhã cedo o clarim tocava a alvorada e imediatamente nos levantávamos, indo ao lavatório refrescarmos a cara e já começava a distribuição do café. Ainda se não tinha acabado já o Cabo da limpeza das muares, seguia pela Bateria fora com a formatura, afim de irmos à arrecadação pelo estojo de limpeza seguindo já em direcção às cavalariças para levarmos as muares para as muralhas em frente ao mar, a onde estávamos durante uma hora. A aragem fria do mar parecia extrapassar-nos enquanto o Cabo da Limpeza ia ao longo da formatura, nós íamos esfregando as mãos, fingindo que trabalhávamos. Acabada a limpeza ouvia-se já o Clarim a tocar para o rancho e como não estávamos habituados àquelas comidas, apenas se comia um bocadinho e já não ia mais.

Em seguida já uma instrução a pé. Acabada esta ginástica. Seguindo já uma instrução de arreio. Ouvíamos já tocar a dar água dando as muares já todas uma risada, compreendendo bem aquele toque. Enfim. Não tínhamos um momento de descanso até ao toque de Ordem.

D’aí por alguns dias começamos com as…

… Instruções a cavalo, dentro da parada. Aqui cai um, ali cai outro até que d’ai por alguns dias já saí-mos para o campo da Agonia e como as muares já há muito que não tinham saído, fora do quartel começaram a saltar e nós com bastante medo de montar para cima delas, que nos parecia que logo íamos pelos ares. Mas o remédio era perdermos o medo. Assim fomos passeando algumas rezes galgando aquelas serras pelos lugares mais manhosos em instrução, até que em Abril eu e outros mais, fomos transferidos sem destino.

Em seguida veio uma ordem, para que todo aquele que quisesse ir para o regimento mais próximo e ficar no quadro permanente, dar o número e eu logo imediatamente fui à secretaria da Bateria a fim de ir para o Regimento de Infantaria nº 8 que me era mais próximo. D’ai por dois dias era o sorteio. Tocou a formar e eu como não entrava ao sorteio, fui um dos últimos a ir para a formatura e quando me ia a aproximar, disse em vós alta: se algum quisesse ir em meu lugar para Infantaria nº 8 eu entrava ao sorteio: - estou disposto para isso – (mas a hora se estava aproximando). Diz logo um rapaz do meio da formatura. Quero eu! Eu como tinha dito aquilo quási como uma brincadeira, disse-lhe logo…

… que não, que era a mangar. Mas ele começou-me a animar e mais alguns rapazes, até que fomos a correr ao comandante o qual nos disse que era com o Sr. Alferes ajudante. Lá fomos ter com o Ajudante o qual nos disse: - vocês não ouviram dizer que quem quisesse fazer trocas, que era ontem? E nós lhe dissemos que não sabíamos de nada. Pois sempre se vai arranjar, disse ele. Vão ao Primeiro-sargento que lhes mude o número na ordem que eu aqui faço o mesmo. Lá fomos ter com o Primeiro-sargento, ficando a troca feita. Já eu ia entrar ao sorteio e fomos em seguida para a formatura seguindo já para a secretaria ao sorteio. Eramos quinze. Diz o Capitão: os nove primeiros ficam no serviço, os quatro em seguida saem livres e vão para a Póvoa do Varzim e o último vai para infantaria nº8 livre também pelo sorteio. Um dos soldados tirava os bilhetes da urna e passávamos para eu ler. Cada um que vinha era um golpe que eu apanhava a ver quando aparecia o meu. Assim que cheguei aos nove fiquei mais um pouco sossegado, até que saíram os catorze e o meu ficou último. Pergunta o Capitão, e não é o que falta ainda? Disse eu logo. Sou eu meu Capitão. Pois vamos a ver. Saía logo o meu….

… número livre para Infantaria nº 8. Diz o Primeiro-sargento para o Capitão: Este rapaz é que teve sorte, que ainda há poucas horas tinha de ir para Infantaria nº 8 para o quadro permanente e agora vai livre pelo sorteio.

Passados alguns dias, vim com seis dias de licença pela Páscoa.

Voltei para lá na Segunda-feira de Páscoa no comboio da noite, a onde estive até ao Sábado de Pascoela, dia em que vim para Braga.

Fiz a minha apresentação no quartel de Infantaria 8 e ficando pertencente à Primeira Companhia. Nesse mesmo dia, já vim a casa e na chegada estavam a ler uma carta que eu lhes tinha enviado de Viana do Castelo, com as boas notícias da minha sorte. Mas como em Infantaria não houve sorteio em Maio, estive até ao de Agosto. Ali fui passando este tempo, hoje fazia uma Guarda, amanhã uma Faxina, outro dia vinha a casa com dispensa do recolher, até que um dia tendo metido uma dispensa e não esperei pelo Toque de Ordem, quando cheguei fui castigado com um dia de detenção (10 de Maio de 1915) por ser a primeira vês. Parece que foi praga. Enxertaram-me e d’ai por algum tempo no dia cinco de Julho de 1915, duas guardas por a sentinela me não deixar passar um novelão? E eu filo pela janela da Primeira Companhia por assim ao Popcelo?

D’ai por algum tempo fui numa diligência para Amares, para assistirmos aos votos ou eleições, saindo de ..

… de Braga ao sol-posto, passamos o rio Cávado há meia-noite entre Adaúfe e Ponte do Bico. Chegamos a Amares na madrugada. Chamamos pelo Regedor o qual nos apareceu e nos dirigiu a uma casa onde ficamos aquartelados. No dia seguinte, Domingo, lá fomos para próximo da Urna dizendo-me o Comandante da força (Sargento Malheiro): rapazes, se acaso se der qualquer desordem entre os eleitores, damos-lhe logo uma descarga a valer. Temos de manter a ordem que foi ao que aqui viemos. Esteve tudo em completo sossego, até às quatro horas da tarde. Terminadas as eleições, o Sargento autorizou-nos a ir a uma linda romaria que havia à distância Km? recomendando-nos que não queria por lá desordem.  Assim foi, não houve nada. No dia seguinte tínhamos que vir para Braga e como estava muito calor, arranjamos um carro de Bois para nos trazer as mochilas até à guarda-barreira. Viemos todos por ali fora divertindo-nos com a gente que por ali andava a sachar, até que chegamos próximo do guarda-barreira e recebemos as mochilas, pagamos ao carreteiro e seguimos para o quartel.

Ali fui continuando até que que no dia 20 de Agosto, fui castigado com dois dias de detenção, por estar de Plantão à Caserna e fui à Avenida…

… Central a onde encontrei o Primeiro-sargento, mas fiz que o não vi. Em Julho estava de Ordenança ao Quartel-general, ouvi tocar a doentes e como tinha um pequeno ferimento numa canela de uma perna, fui logo a correr a doentes. O Doutor deu-me logo uma baixa para o hospital aonde estive trinta dias ao fim dos quais tive alta, mas nesse mesmo dia me achei muito doente com dores de cabeça e grandes tremuras. Os enfermeiros logo chamaram o médico e como julgassem que eu morria, já falavam em me tirar para o depósito. Eu ouvindo tudo isto, mas não podia falar. No dia seguinte achei-me um pouco melhor, veio o médico e disse-me: como estás melhor e tens alta vais com cinco dias de convalescença e se não poderes andar voltas a doentes. Assim fui, passados dois dias já não pode aguentar mais e baixei novamente ao hospital onde estive durante oito dias, no fim dos quais já estava bem.

A minha mãe foi-me visitar ao hospital e soube quem era o meu Comandante da Companhia e foi pedir à senhora dele (Dª Branca) para me autorizar a passar a convalescença em casa o que lhe fizeram de boa vontade. Tive alta do hospital, vim logo por casa do Comandante o qual me disse que fosse pela Companhia e que dissesse ao Plantão que me ia embora com cinco dias de licença. Ao fim deste ..

… tempo me apresentei no quartel, aonde fui continuando até que em 26 de Agosto fui em diligência para a Borralha. Saímos de Braga numa Quinta-feira à noite, chegamos acima dos pisões, deixamos as mochilas numa tenda e seguimos só com a espingarda, capote e fogo, até que chegamos à serra do Carvalho mal organizados pelas onze horas da noite. Ouvimos à retaguarda um automóvel e como os carros do lassite? Iam um por cada lado, fizemos parar o automóvel mais quatro que o seguiam, virando-lhe as espingardas. Pararam e ficamos um pouco admirados quando vimos que eles vinham cheios de tropa comandados por o Tenente Ferreira ou mais conhecido por “gato bravo”. Interrompemos alguns dos soldados perguntando-lhes: para onde é que vós ides. Eles nos disseram que não sabiam e lá seguiram. No dia seguinte fomos até Sanfins, aonde descansamos duas horas de noite entre um codessal. Que ficava por cima da estrada, enquanto o gado comia alguma coisa. Nessa ocasião passaram dois automóveis que regressavam da condução das tropas, mas não lhe podemos falar.

No dia seguinte, quando íamos na encosta da serra do Pilar, vinha outro automóvel o qual parou e o chanfre contando-nos o ressoltado. Que …

… tinham ido à borralha levar as tropas, tendo ido na frente uma força de Cavalaria 11, para evitar grandes desordens entre o povo de Vieira e Chaves que andavam em questão por causa do mineral. Lá seguimos a nossa viagem por Vieira fora, chegando pelo meio-dia à feira do Penedo aonde demoramos duas horas (era dia de feira), jantamos e seguimos a nossa viagem pela encosta da serra da Cabreira até Ruivães aonde descansamos algum tempo de noite. No dia seguinte (Sábado) seguimos a viagem chegando à borralha pelas dez horas do dia. Entregamos o material. Falamos com alguns soldados dos que lá estavam. Fez-se a apresentação ao Tenente e voltamos embora a direito por um monte fora com destino a Ruivães, aonde chegamos pela tarde dum dos dias de calor de Agosto um pouco acalmados e fatigados da viagem. Jantamos. Ainda tínhamos de percorrer 13 léguas. Como nessa povoação havia uma garagem da carreira para Braga fomos ver por quanto nos levavam. Disseram-nos que 400 reis cada um. Fretamos logo o carro e pagamos o bilhete, ficando o cocheiro de chamar por nós há uma hora da noite. Fomos para o restaurante e dormimos até à uma, partimos chegando ao Penedo ao nascer o dia, chegamos a Vieira às sete horas e ai mudaram os cavalos. Lá viemos por ali fora cantando o fado do trinta e um, até que chegamos aos piões a Braga ás…

… nove horas do dia. Mas como vínhamos adiantados dois dias, pelo motivo de virmos no carro e era dia da romaria do Sameiro, seguiram cada um para onde quis, ficando de ali aparecer na Terça-feira ao meio-dia sem falta, afim de fazermos a apresentação no quartel. Eu lá fui até ao Sameiro e dai, vim passar os dois dias a casa, apresentando-me no local marcado à hora determinada. Não faltou um. Lá fomos pela cidade fora como se viesse-mos directamente da Borralha, apresentando-nos no quartel sem novidade. Como durante esse tempo de diligências os soldados livres pelo sorteio tinham ido embora eu fui logo falar com o Primeiro-sargento para ver se também ia. Ele disse-me que eu já não ia e que os outros iam ser já chamados, a fim de fazer parte da escola de repetição que era dai por oito dias. Então por ali fiquei até ao dia 17 de Setembro de 1915, dia em que partiu a escola de repetição, à tarde para a serra do Carvalho aonde pernoitavam. No dia seguinte pela manhã cedo seguimos dois com os carros da secção de quarteis directamente ao Carvalho, aonde durante aquele dia. No dia seguinte seguiram as tropas para a Póvoa de Lanhoso, aonde se juntaram com Artelharia 5. Nessa Vila fomos muito bem recebidos. Houve uma grande festa e como era Domingo esteve por ali muita gente durante o dia…

Há noite, muito fogo de artificial e balões, tocou a música regimental e a da Vila da Póvoa. No dia seguinte (Segunda-feira) pela manhã partimos com a secção de quarteis novamente para a serra do Carvalho, enquanto as tropas vinham pela serra fora em exercício de combate fazendo fogo de bala de pau. Na Terça-feira pela manhã seguimos para o monte de São Gregório próximo da estação de Braga onde estivemos até à Quarta-feira de manhã seguindo directamente a Famalicão, sendo dia de feira. Acampou o 1º Batalhão no adro de Gavião e os dois no centro da Vila. Andei transportando com o carro da companhia géneros da Vila para Gavião até à meia-noite indo depois às uvas do Padre. No dia seguinte seguiram as tropas para o monte de Santiago, afim de fazerem o exercício geral, e nós apenas seguimos à noite com os carros tendo feito diversas investidas. Esteve por ali muita gente a ver os exercícios militares.

No dia seguinte (Sexta-feira) seguimos para o Adro de Tadim aonde passamos ali a noite seguindo de manhã (Sábado) para o quartel por baixo de muita chuva. Esteve uma tarde de muito inverno, e eu queria ir ao fogo da Senhora do Fastio, mas como tinha de voltar a Braga no Domingo pelas 10 horas fiz a entrega dos meus artigos, tendo-me faltado bastantes objectos da ordem tanto pertencentes ao carro como ao equipamento, mas nada tive que …

… entregar porque fiz como manda o regulamento militar. E nesse mesmo dia vim embora de bicicleta, sendo dia da romaria da Senhora do Fastio.

Escola de Sargentos 

 Em trinta de Abril de 1916, tive novamente de me apresentar afim de frequentar a escola de sargentos, mas como eu já estava em casa não fiz conta daquilo para nada, queriam que eu comprasse os livros o que eu não fiz e muito mais condiscípulo. O professor bem nos dizia que nos era melhor ir para a guerra como sargentos do que como Soldados, mas nós ainda não pensávamos em guerra. Ali passamos até 22 de Maio dia em que vim embora.

Partida para Tancos 

Em trinta de Setembro de 1916, apresentei-me novamente para seguirmos para Tancos para a mobilização. Chegamos a Tancos pelas nove horas da manhã, seguimos para o acampamento que ficava à distância de 2 Km aonde ficamos em barracas de pano. Na manhã seguinte tivemos uma formatura na qual fui um dos primeiros a formar. Chegou o Primeiro-Sargento e disse para mim e para mais dois que fossemos preparar a mochila e para nos irmos apresentar ao Quartel-general, aonde nos apresentamos e ficamos adidos.

Pela manhã tomava-mos o café à hora que nos quiséssemos levantar. Íamos até ao Quartel-general onde pouco serviço fazíamos. Não tinha formatura alguma, dava o meu passeio de bicicleta por aquelas terras e cidades como Tomar, Abrantes e Torres Novas, Constança, Barquinha, Praias, etc. Passei por ali aqueles dias muito regular enquanto as tropas de instrução passavam aqueles dias de calor por aqueles montes em exercício. Quando um dia à tardinha chega no Quartel-general uma ordenança da Guarda Republicana, comunicando que no acampamento havia grande desordem, tendo-se dado já alguns tiros. Os Oficiais do Estado-maior montaram nos automóveis e seguiram para o acampamento aonde estava tudo alvoraçado. Foram os Soldados de Infantaria 16 que se pegaram com os de Infantaria 13 por causa de uma águia. Por ali se passaram estes dias até que por resto as tropas foram para o exercício geral para a Chamusca atravessando o rio Tejo por uma ponte feita pela Engenharia. D’ai por alguns dias partiu o Batalhão de Infantaria 8 para Braga e eu fiquei por ali até saírem as tropas todas. No fim de tomarmos conta de tudo, viemos embora para Braga e logo fomos com licença registada.

Partida para França

 

Em …de Março de 1917 fui convocado para me apresentar para partir para França, fazendo parte do Quartel-general. Mas depois fomos dispensados eu e outros mais até que ficamos ao serviço até que fosse o Batalhão. Mas como entretanto foi uma força de 25 Praças comandadas por Sr. Alferes Lomba para os Arcos de Valdevez e eu escapei-lhe, mas d’ai por algum tempo veio ordem para irem mais 12 Praças comandadas por um Sargento. Fui escalado também. Lá seguimos um Domingo dia 1 de Abril a pé com as mochilas às costas e 120 tiros nas cartucheiras. Chegamos a Vila Verde pelas nove horas da manhã, almoçamos cada um à sua custa, afretamos um carrinho para nos levar até a Vila de Ponte da Barca, aonde tivemos um amigo que nos ofereceu um copo de vinho a cada um. Seguimos para os Arcos de Valdevez que fica à distância de 5,5 Km. Chegamos a certa distância, diz um dos Soldados: cheira aqui tanto a pólvora, ao que todos se riram. Dizendo: Não é a pólvora é a medo. Chegamos mais adiante e avistamos um Soldado ao longo da estrada, fomo-nos aproximando até …

… que nós o interrogamos, perguntando-lhe o que se passava. Disse-nos que tudo tinha corrido bem. Chegamos à Vila de Arcos, aquartelamo-nos num restaurante em frente à cadeia e ali estivemos alguns dias, dando uns passeiozinhos ali pelos arrabaldes da Vila, divertindo-nos com aquelas raparigas d’ali que eram tão engraçadas e davam muita confiança aos soldados. Passava-mos algumas horas sentados no muro que faceia o rio divertindo-me com as raparigas da Vila que ali se encontravam a lavar. Um daqueles dias à tarde um Soldado foi para a beira de uma velha que estava a lavar, onde estavam muitas moças novas e bonitas, mas ele falou por brincadeira o que ela também compreendeu e todos se riam, mas o parvo do homem dela pescou lá de casa e tomou o caso a sério e veio chamar por ela todo escamado e nós lhe demos uma data de parvo, burro e palerma.

No dia seguinte eu e alguns Soldados partimos para Viana do Castelo a acompanhar alguns vagões de milho que transportávamos pelo rio. Chegamos a Ponte de Lima e estava muita gente sobre a ponte com o fim de nos não deixar passar. Saímos fora, dois por cada lado da ponte e fizemos retirar tudo e seguimos, chegando a Viana no Sábado de Aleluia. Entregamos o milho e fomos …

… adir ao regimento de Infantaria 3. Por ali passamos aqueles dias da festa da Páscoa com a mais profunda saudade por estarmos por assim dizer perto e não podermos ir a casa. Muito nos custou mas tivemos de roer.

Na Terça-feira pela manhã partimos a pé com a mochila às costas com o destino aos Arcos de Valdevez, atravessando aquelas terras Vianesas e onde quer encontrávamos carrinhos de burros com Soldados que se iam apresentar a Infantaria 3 com o destino de seguirem para a guerra. Uns caminhavam chorando e outros cantando, mas sabe Deus. Lá fomos seguindo a nossa viagem até que pelo meio-dia chegamos à Vila de Ponte do Lima onde jantamos qualquer coisa, porque a nossa bolsa andava muito magra. Como estava muito calor e não podíamos caminhar na ocasião da sesta descansamos duas horas, numa casa aonde estava também uma força de Infantaria 3 com o mesmo fim que nós andávamos. Às três horas da tarde lá seguimos a nossa viagem sempre à margem esquerda do rio Lima, até que ao sol-posto, chegamos a uma povoação chamada S. Martinho da Gandra e tratamos de procurar o Regedor daquela terra para o obrigarmos a …

… arranjar-nos dormida. Mas Regedor que te viste! Ofereceram-nos ali uma pequena sala para passarmos a noite, sem apenas algumas palhas, até ficamos sobre as tábuas. Não posso esquecer um cavalheiro, lavrador que conhecia bem a vida dos Soldados e antes de nos deitarmos veio-nos convidar para irmos a casa dele bebermos uma pinga, do que nós nos aproveitamos muito reconhecidos. Lá chegamos, de uma varanda solta logo nos apareceu uma filha com uma boroa de pão ainda quente e logo em seguida uma caneca de vinho Branco. Bebemos e mastigamos com apetite porque a viagem tinha sido esforçada. Agradecemos muito reconhecidos a fineza do lavrador. Mas como ali chegamos muito soados e dormimos sobre as simples tábuas. Quando acordei achava-me completamente doente com dores de cabeça e grande constipação sem poder já seguir a viagem que ainda faltavam 4 Km. Afretámos um carrinho e lá seguimos, chegando aos Arcos pelo meio-dia (Quarta-feira dos Cercos) e logo fui para o meu quarto muito incomodado. Naquele mesmo dia chega-nos um telegrama para recolhermos ao quartel a fim de seguirmos para a França. Como ficaram os nossos corações, além de já esperarmos esse chá de dia para dia. No dia seguinte…

Pela manhã seguimos para o carregadouro com todo o milho que havia comprado. Mas como a distância era de 10km e os carros rodavam devagar chegamos ali à tardinha. Fomos arranjar alguma coisa que comer por aqueles lavradores indo eu e outro companheiro ter a casa d’uma Senhora muito rica.

Que nos recebeu muito bem, dando-nos logo que comer e contando-nos que um seu filho também partia para França com Infantaria 3, Lamentamos a sua mágoa pela sua bondade, mas enfim a nós vai-nos acontecer. No dia seguinte na madrugada cedo ali embarcamos três barcos que levaram cada um bagão de milho. Chegamos às proximidades de Ponte de Lima e ouvimos faularia de entre um pinhal que deixasse-mos o milho. Disparamos-lhe para lá alguns tiros e seguimos chegando a Ponte de Lima pelo meio-dia

.Apenas demoramos alguns momentos e seguimos, chegamos perto de Viana pela tarde e como a maré estava baixa os barcos começaram a roçar na areia até que pararam, saímos fora para um campo ou por assim dizer uma ilha que ficava no meio do rio. D’ali por algum tempo a maré começou a crescer e já seguimos, e as águas do rio que era próximo ao mar puseram- se…

… Tão furiosas que nos queriam saltar para dentro dos barcos, até que chegamos a Viana ao escurecer. Ali estivemos até que os carreteiros nos levassem o milho todo para a estação. Acabamos este serviço à meia-noite sem comer nada durante o dia, por isso que já não andávamos muito contentes, e aquela hora já não havia que comer, que todas as casas estavam fechadas. O comandante da força (Alferes Lomba) arranjou-nos para nos acomodar no restaurante uns pastéis, dando um a cada soldado e um copo de vinho. Ali passamos a noite dentro de um vagão do Caminho-de-ferro. No dia seguinte até estivemos na estação até às duas horas da tarde. Presenciamos a partida de Infantaria 3 para França. Não faltavam ali choros, lágrimas, etc. Era ali uma terrível berração na hora em que o comboio partiu (meio-dia). Que despedida tão triste! Já nos lembrávamos o mesmo que nos ia acontecer d’aí por oito dias. Às duas horas da tarde lá partimos, nós com destino a Braga e aquela gente a dizerem adeus, julgando que nós também já íamos. Chegamos a Braga, arrumei com tudo na companhia e já não quis saber de nada, montei na bicicleta e vim-me embora. No dia seguinte voltei. O dia da partida aproximava-se e assim fui passando aqueles poucos dias de Braga até casa e de casa até braga, até que no dia…

Vinte de Abril de 1917, viemos a casa, os três, eu o Daniel e o Monteiro. Voltamos para Braga no comboio das 11 horas da noite a fim de partirmos para a França, no dia seguinte de madrugada. Fomos para o hotel Hespanhol, aonde passamos o resto da noite. Pedimos à patroa do hotel para chamar por nós às 4 horas da manhã, hora a que nos levantamos. Seguimos para o quartel, encontrando já o Campo da Vinha, em frente ao quartel, coberto de gente das famílias que se vinham despedir dos Soldados. Ouve-se já tocar a formar a companhia e o batalhão em frente ao quartel. O comandante mandou quatro à direita, marche, e duas fileiras civis se preparam até à estação pelos dois lados, enquanto na nossa marcha se ouviam gemidos e suspiros. De onde a onde uma mãe, uma irmã ou uma esposa interrompiam a formatura abraçando a despedir-se d’uma pessoa querida. Chegamos à estação e entramos e entramos para o comboio. Que despedida tão triste da nossa terra ou por assim dizer do lar paterno, ao marcharmos para a guerra, lembrando-nos que jamais cá voltaríamos. Naquele momento o comboio dá partida, tantos braços nos assanhavam…

… a despedir-se e tantos gritos ouvíamos. Mas enfim lá caminhamos com a nossa mágoa. Ainda duas fileiras nos acompanhavam pelos campos à margem da linha férrea saudando-nos com os lenços brancos a despedirem-se. As estações estavam à pinha. Chegamos a Nine e ai então, é que foram as verdadeiras despedidas das pessoas conhecidas. Uns choravam outros sabe Deus a sua mágoa, mas sempre com a cara risonha. Algumas pessoas nos confortavam e reanimavam. O comboio deu partida e só ouvíamos gritos e suspiros, continuando as duas fileiras até ao Porto, porque os soldados de Infantaria 8 eram todos destas terras. Desde que passamos o Porto, começamos a cantar para espalhar as saudades que nos acompanhavam. Chegamos à estação de Chão-de-maçãs e os soldados se começaram a estender por um monte próximo aos figos. O comboio deu partida e ainda alguns ficaram em terra. Chegamos a Lisboa às 5 horas manhã, já ali nos esperavam em frente ao Cais quatro vapores monstros. Apeamo-nos do comboio e logo seguimos para os vapores. Uma grande multidão de povo desconhecido se ali encontrava. O vapor retirou para o largo, não faltando neste momento gritos, choros e gente caída desacordada. Os nossos corações já íamos tão cheios de ouvir chorar, de gemidos e de suspiros.

Às duas horas da madrugada (22 de Abril de 1917) os vapores levantaram ferro e seguimos com destino ao Norte de França. No dia seguinte pela tarde, a certa altura na costa Hespanhola, ouvimos subitamente três tiros de canhão disparados por um Destroier (barco de guerra) que nos acompanhava. Naquela altura ficou tudo alvoraçado, subindo para a proa do vapor com os coletes de cortiça à cinta dizendo uns para os outros, que será isto? Cada um dava o seu plano dizendo: é em instrução, outros diziam que não era nada. Naquele momento o Destroier começa novamente de disparar fogo, cortando pelas águas fora com grande velocidade. Um submarino Alemão nos apoquentava. Estávamos vendo quando o vapor se submergia nas águas. Eu fui subindo por um mastro do vapor, lembrando-me que ainda ficaria fora da água. Já não esperávamos senão a morte. Mas como o Destroier fez muito fogo o submarino retirou e fomos seguindo a nossa viagem, que, a certa altura da noite seguinte o vapor parou, retirando-se o Destroier por algum tempo e nós um pouco admirados com aquilo. Depois soubemos que por um telegrama sem fio, um vapor Hospital que naquela tarde tinha passado por nós …

… sendo atacado por o mesmo submarino, pediu socorro. Lá fomos seguindo, até que no dia 25 de Abril pela manhã chegamos ao porto de Brest, França, aonde desembarcamos pelas 4 horas da tarde. Ali ficamos um pouco magoados ao vermos só velhinhos e rapazes de 15 anos para baixo. As mulheres todas cobertas de luto por aqueles que lhe tinham morrido na guerra, nos rodeavam o vapor em pequenos barcos, pedindo-nos que lhe deitasse alguma coisa abaixo e nós como ainda levávamos muitos barbos? Lhe deitamos bolachas secas e latas de sardinha que levávamos para a viagem. Naquele dia a tarde desembarcamos e o Comandante da companhia mandou deitar ali, ei uma ruma as sacas que levávamos com as roupas e com alguma coisa de comer, que chegavam lá quando nós. Pois desapareceram e nunca mais as vimos. Tive que comprar alguma roupa assim como camisas. Demos ali um pequeno passeio pela cidade de Brest, estranhando a fala daquela gente que não compreendíamos uma fala, apenas lhe pedíamos alguma coisa por aceno (gestos). Ao sol-posto seguimos para a estação dos caminhos-de-ferro a fim de embarcarmos, já um grande comboio ali nos esperava. Às sete horas da tarde o comboio deu partida com destino ao Norte de França. No dia seguinte (26 de Abril) pelas nove horas numa estação cujo nome ignoro, nos …

… foi oferecido um chá a cada soldado. A comida era sempre ração fria durante a viagem no caminho-de-ferro. Assim fomos seguindo até que no dia seguinte (27) pela manhã começamos a encontrar por aquelas estações, prisioneiros acompanhados por soldados de baioneta armada. Onde quer encontrávamos um comboio Hospital cheio de feridos, o que nos cortava o coração. Encontramos ambulâncias da Companhia de Saúde, transportando feridos e julgando que já estávamos perto e mais adiante encontrávamos acampamentos militares e tropas em instrução e nós cada vez mais admirados com o coração sempre precipitado, até que naquele dia ao sol-posto desembarcamos na estação de Wizernes (norte de França). Seguimos durante a noite com destino a uma povoação chamada Vaudringhem,

 com a mochila às costas e levando cada um duas mantas. Chegamos a certa altura da noite e enganamo-nos no caminho. Os Oficiais já se não entendiam com a carta. A gente e toda muito maçada da viagem e começaram a ficar pelo caminho, uns encostados pelos medeiros de palha de trigo que se encontravam perto da estrada, e outros estendiam-se pela valeta da estrada, até que por fim só seguiu o Major e alguns Oficiais. Já nesta noite começamos a ouvir o estrondo dos canhões nas linhas de fogo que ainda ficavam a setenta quilómetros e já se nos figurava tão perto. Já começamos a dizer mal da nossa vida. Na manhã seguinte fomos seguindo a estrada encontrando deitados aqui e ali Soldados, Sargentos e alguns Oficiais. Até que chegamos a certa altura, lá já um descampado e avistamos lá ao longe num fundo uma povoação e mandou-se dois soldados ver se lá se encontraria o Comandante do Batalhão. Logo nos deram de lá sinal por meio de uma bandeira que sim, que estava. Seguimos para essa tal povoação que se chamava “Vaudringhem”.

Fomos ter com o Major, que se encontrava um desesperado pela nossa situação, dando-nos algumas falas inconvenientes, que nós fomos os culpados d’aquilo, que, que se nós não fosse-mos ele que também não ia. O capitão Oliveira Comandante da 2ª Companhia, dizia que com pouco que desse que se apresentava com a companhia em Portugal e nada podia fazer. Naquele dia a tarde dividiu-se as quatro companhias por as povoações vizinhas, ficando os soldados aquartelados pelos palheiros dos lavradores. Não aparecia que comer, tudo estava cheio de fome. Assim se foram passando alguns dias até que começou …

… a vir alguma coisa que comer, mas muito pouco. Estivemos. ali durante uns oito dias ao fim dos quais voltamos para Vaudringhem. Aonde se juntou outra vez o Batalhão afim de ir fazendo instrução. D’ai por alguns dias estávamos numa formatura e como houvesse falta dum condutor o 1º Sargento perguntou se ali havia algum habilitado? Respondeu logo um rapaz que sim, mas que o 1º Sargento conhecia-o e disse que não servia, e eu então sempre disse que estava eu, que era de Artelharia. Ele logo ficou com o meu número. Fomos continuando com as instruções por aqueles campos e indo alguns dias passar a sesta a um bosque ou floresta que ali havia perto. Chegamos lá, ensarilhamos as armas e saímos à caça dos coelhos aonde havia muitos.

Já d’ali, a 74 Km das trincheiras nos metia medo e horror dos canhões, os quais lá de longe nos fazia vivar o espirito. Em todos os cobertos ou palheiros dos lavradores, se ouvia em coro rezar o Terço à Virgem Imaculada de Lurdes, que era lembrada sempre por todos os soldados nas horas mais …

… terríveis de aflição em que a tempestade das granadas estilhaçavam por entre nós. Na Igreja desta povoação todos os dias de Maio, à tarde os soldados de Infantaria 8, faziam o mês de Maria e ao mesmo tempo por meio de subscrições entre os soldados, iluminavam toda a Igreja com velas de cera. Por fim nas despedidas desta povoação, deixaram como recordação duas toalhas, uma azul ao Coração de Jesus e outra Cor-de-rosa ao Coração de Maria com os seguintes dizeres: - Oferecida pelos Soldados de Infª 8 “Portugais” -.

D’ai por alguns dias o Comandante da minha Companhia, me queria promover a 1º Cabo e eu lhe disse que não queria, que era condutor. Logo me foi distribuída uma pistola (Selvoge) assim como a todos os soldados as espingardas Inglesas. Assim fomos passando por ali estes dias de Maio, até que no dia 8 de Junho avançamos para a frente, 30 quilómetros para uma povoação chamada Blessy.


Esta viagem foi para o Batalhão muito maçadora, por ser muito calor, ficando até muitos soldados caídos pelo caminho com a calmaria da estrada. No dia seguinte lá fomos nós também os condutores com os carros, dando-se pelo caminho alguns espetanços.

Fugiu-nos uma muar e esbarrou-se um carro de companhia contra uma árvore. Chegamos a Blessy à tardinha e fomos acampar com o parque numa floresta para o gado não ser visto pelos aeroplanos inimigos que com as bombas escangalhavam tudo.

Logo que ali cheguei, fiquei admiradíssimo ao ver os movimentos dos aeroplanos em instrução e ao mesmo tempo o estrondo dos canhões nas trincheiras que já ficavam muito próximas. O calor já era bastante nestes dias de Junho. Passei ali a primeira noite encostado a uma árvore sem poder dormir com o troar dos canhões que durante oito dias e noites não sossegavam. D’ali já víamos os Barilayts subirem ao ar nas trincheiras o que achávamos tão bonito e nos fazia lembrar as festas do Minho de Portugal. O Batalhão continuava em instrução de guerra, tendo grandes marchas. D’ai por alguns dias tivemos a escola de Esgrima n’um campo que era rigorosíssimo, desde o momento que ali entrasse, tinha que se andar sempre …

… acelerado, nem que viesse a maior tempestade, não se arreva um passo. O instrutor era o Sr. Capitão Roma de Infantaria 13. D’ai por alguns dias tivemos a Escola de Gazes a qual também era custosa e metia grande impressão ao ver alguns soldados apanharem, alguns gazes quando as máscaras tinham algum buraquinho. Assim fomos passando estes dias por Blessy enquanto o Batalhão andava em instrução. Logo em seguida durante a noite começamos a ser visitados pelos aeroplanos “ boches” o que nós ainda não estávamos habituados, mas como ficava próximo a cidade de Aire prosseguiam muito aquele ponto formando-se no ar grande bombardeamento e deitando algumas bombas sobre um Hospital militar que estava na dita cidade, chegando os doentes a fugirem pelos campos fora. Assim nos íamos distraindo para não vivermos sempre pensativos. A vinte e cinco de Julho de 1917 partiu a 1ª companhia as trincheiras no sector de Armentieres, juntamente com os Ingleses durante três dias como visita.



D’ali por alguns dias foram as outras três companhias em camiões Ingleses para as trincheiras, ficou ali apenas a nossa secção dos condutores alguns dias até que seguimos também um …

… um Domingo pela manhã com destino a Paradis, com a mochila às costas até à estação da cidade de Aire, aonde estivemos à espera do comboio até há uma hora da tarde, formando-se ali um grande temporal de trovões, chuva e vento. Há uma hora da tarde embarcamos com destino à Vila de Merville mas logo que chegamos à primeira estação de Isbergues o comboio parou e ali estivemos até às 4 horas da tarde, tendo depois que seguirmos a pé, deixando ali, numa ruma, as mochilas.

Lá seguimos, durante a tarde, chegando ao escurecer à cidade de Saint-Venant seguindo à margem esquerda do canal do Liys com destino a Merville, mas logo encontramos dois camiões que nos vinham esperar. Montamos nos camiões chegando a Paradis muito próximo das trincheiras pelas 8 horas da noite, aonde encontramos o Batalhão. E como estávamos ansiosos por saber as notícias das trincheiras, começamos logo a interrogar alguns camaradas conhecidos os quais nos disseram que pela primeira vez foram muito felizes, que apenas foi um ferido. Ali estivemos em Paradis algumas semanas indo de vez …

… em quando a Veill-Capelle  perto das trincheiras pelos géneros para o batalhão. A minha cama era dentro de um carro francês, dentro de um coberto ao ar livre. Nos fins de Julho segui com o batalhão para Sailly-sur-la-lys para entrar oito dias nas trincheiras. Chegamos a esta Vila aonde acampamos debaixo de bastas pereiras cheias de peras, tão madurinhas e apetitosas. Mas como era muito próximo das trincheiras as granadas já nos faziam andar sobressaltados com a barriga arrasto pelo chão, não nos dando cuidado as peras porque ainda não estávamos bem habilitados a esta festa. De noite um Raide boche bem sobre nós descarregando bombas nos arrabaldes da Vila enquanto os canhões antiaéreos faziam fogo vivo. Os focos eléctricos encruzavam no ar afim de os encontrar. Logo em seguida um dia à tardinha caminhava o Batalhão para as trincheiras pelas ruas de Sailly-sur-la-liy aos pequenos grupos distantes uns dos outros com a vista baixa como se caminhassem para a morte.


Todos os dias à noite iam quatro carros com os géneros para as companhias e eu sempre a ver quando por lá ficava algum estilhaçado. Lá fui eu também na última noite com um certo receio da viagem que era a primeira vez. Quando ia passando nas ruas de Amentières um …

… aeroplano boche voava sobre nós acompanhado por um foco, enquanto a Artelharia lhe fazia fogo. Fomos caminhando aproximando-nos cada vez mais dos Verilayts que constantemente subiam no iluminando tudo. Parecia quase um arraial d’uma festa. A metralhadora ligeira, ou, como lhe chamavam os soldados, a costureirinha, não tinha sossego durante a noite. De vez em quando um morteiro dos pesados escangalhava um pedaço de trincheira ficando alguns soldados feridos e outros mortos. Passados estes oito dias voltamos outra vez para Sailly-Sur-la-Lys aonde estivemos pouco tempo seguindo para Paradis aonde estivemos até 24 de Setembro. Ali apenas havia algumas instruções. Em 24 de Setembro, foi então que começou verdadeiramente o fadário da guerra, para a 4ª Brigada em que fazia parte Infantaria 8. Neste dia deu entrada nas trincheiras este batalhão sendo esperado logo por um raid, travando-se um valente combate no qual tivemos 4 baixas e alguns feridos. Na segunda noite fui com um carro de campanha levar-lhes os géneros e logo me calhou de ir mais adiante à companhia de apoio. Descarreguei o carro e logo voltei para a retaguarda.

Chegando um pouco adiante, começam a cair granadas ao lado esquerdo e o meu chefe de carro atirou-se abaixo metendo-se numa valeta da estrada e eu um pouco precipitado sem saber o que havia de fazer, atirei quatro chicotadas às muares e dentro em pouco tempo cheguei ao parque e comecei a desarrear. Neste momento vem um aeroplano boche por cima das baterias de Artelharia na minha direcção descarregando bombas e a minha sorte foi ao chegar próximo elas acabaram-se-lhe. Assim fomos passando este tempo por Vieille-Chapelle, enquanto o Batalhão estava nas trincheiras, oito dias dentro, oito dias fora sempre debaixo da fúria da metralhadora passando noites de tempestade ao parapeito enquanto os morteiros pesados, médios e ligeiros avançavam pelos ares fazendo um pranto de arrepiarem os cabelos. A Artelharia de vez em quanto batia as trincheiras pedindo-se o S.O.S. Aonde quer ficava um posto escangalhado e meia dúzia de soldados feridos e outros mortos, era horroroso o espectáculo das trincheiras. Pelos ares de noite passavam os raides aéreos dum lado para o outro com destino às grandes cidades, acampamentos militares e fábricas de munições.

No ar estavam os observadores, suspensos nos balões cativos, afim de observarem os movimentos inimigos, o mesmo que se dava também com os Alemães. Os combates mais furiosos eram durante a noite. Assim fomos passando estes dias de inverno de Setembro, Outubro e Novembro de 1917 por Vieille-Chapelle sendo tanto o gelo que muitas as vezes, que nem os carros podiam caminhar pela estrada porque os cavalos ou muares escorregavam e caiam. Muitas as vezes que os soldados morriam gelados nos postos de escuta. As águas gelavam, chegando-se algumas a passar-se sede por a águas estarem coalhadas. Próximo das trincheiras tudo era uma completa ruína, os campos estavam todos cavados pela Artelharia e ensarilhados de arame farpado, afim de evitar um avanço rápido. Tudo estava cheio de trincheiras de reserva, as casas estavam todas escangalhadas.

Todos os dias os carros de munições transportavam munições e géneros para as tropas, não se olhando ó sol nem à chuva. A Artelharia bombardeava constantemente por todos os pontos.

Nos últimos dias de Dezembro, retiraram em descanso para a cidade de La Gorgue 

…por um mês. Chegamos a La Gorgue no último dia de Dezembro de 1917 o tempo mais frio deste inverno. Por não termos casa para passar a noite, dormi num campo próximo a um silvado, embrulhado em sete mantas, mas quando cheguei pala meia-noite estava completamente gelado, ficando-me sempre na memória o estrepasse de 1917 para 1918.

Ali estive até 15 de Janeiro dia em que baixei ao hospital de Saint Venent que ficava à distância de duas léguas.

Mas como o Hospital estava cheio, fiquei numa enfermaria coberta a lona, num campo muito frio. Ao fim de oito dias tive alta, indo novamente para La Gorgue. Nesta cidade apenas se fazia alguma guarda à cavalaria e algumas viagens com o carro. Era muito próximo das trincheiras. Em sete de Fevereiro deu novamente entrada nas trincheiras o Batalhão de Infantaria 8 no sector de Laventie,


indo eu com o carro levar a mobília duma companhia. O parque mudou-se para os arrabaldes da cidade. Nesta Vila de Laventie ainda se encontrava muita gente civil, assim como muitas casas de comércio, mas assim que ali chegou o nosso Batalhão, os Alemães começaram…

… de bombardear a Vila, causando-lhe grandes ruínas e matando alguns soldados dos que ali se encontravam. D’ai por oito dias o Batalhão veio para a Vila afim de descansar 6 dias e os soldados entravam naquelas casas arruinadas procurando garrafas de vinho e alguma coisa que comer. Assim se foi passando este tempo, até que nos princípios de Março é que começaram os verdadeiros combates com os portugueses. Todos os dias caiam granadas de grosso calibre pelos arrabaldes de La Gorgue, procurando o Quartel-general da 2ª divisão e os parques da 4ª Brigada. Todos os dias íamos com os carros levar os géneros a Laventie e pelos lavradores comprando batatas e coisas.

Na noite de 9 para 10 de Março estava de guarda à cavalariça, e tendo deixado a máscara dos gazes num coberto de um lavrador, aonde costumávamos dormir, mas que aí por uma hora da noite, começaram a cair granadas de gazes e explosíveis à volta da cavalariça, e eu levanto-me um pouco aflito por não ter a máscara comigo e fui a correr busca-la para assim resistir aos gazes asfixiantes, que eram uma das coisas mais terríveis desta guerra, e era-nos mesmo proibido andar sem ela na zona de guerra.

Mas não a pus logo na cara enquanto não conheci o cheiro aos gazes. As granadas continuavam vastamente naquele ponto fazendo-nos andar para a esquerda em linha com a barriga a rasto. Mas como naquele lugar se colocou uma Bateria Inglesa, todos os dias ali faziam fogo de barragem e explosível. Chegamos pelas duas horas da noite ali, começavam a cair granadas e nós agarrávamos na máscara e alguma manta e fugíamos d’ali para fora, indo passar o resto da noite encostados a alguma moeira? de palha triga ou em algum coberto de lavrador. Quando o fogo abrandava lá íamos tomar o café, mas sempre com a orelha fitada a ver quando vinha mais casqueirada. Assim fomos continuando, até que aí por 15 de Março uma manhã eu tinha que arrear uma parelha para ir a Ponte Riquel, buscar os géneros para o Batalhão, as granadas caindo em volta do parque constantemente, e eu com bastante receio, mas tinha que ir forçosamente nem que chovessem granadas, arreei a parelha. Lá fui todo apressado e comecei de arrear, e logo duas granadas vieram cair encostadas à cavalariça. Eu estendi-me imediatamente no chão fugindo de gatas por a cavalariça dentro…

… a grande explosão de terra e estilhaços caiu por cima da cavalariça. Neste momento as mulas fugiram espavoridas e eu levantei-me fugindo imediatamente d’ali para fora. As granadas continuavam e logo mataram um impedido  e cavalo do Quartel-general (rapaz de S. João de Bastuço Marinho). Fui novamente à cavalariça por as muares acabando de as arrear um pouco retirado. Os dias iam passando, os bombardeamentos cada vez mais continuados. Nós já esperando, uma grande ofensiva dos Alemães, pelos movimentos, que ouvíamos durante a noite, transportando canhões para a nossa frente e retirando os da frente Russa. O General Comandante do C.E.P. foi avisado por o General Inglês, oferecendo-lhe tropas de reforço, o que ele não quis, dizendo que fazia confiança nas suas tropas. Tratou-se logo de retirar a arrecadação mais para a retaguarda. Os condutores todos os dias iam com carros transportar as mobílias aos civis que não tinham carro para retirarem. Um dia fui com o carro à Villa de Laventie em 18 de Março, por umas malas dos Oficiais, apenas retiro com o carro duzentos metros e já as granadas caíam por a casa abaixo escangalhando tudo. Assim fomos continuando até que no dia …

… 20 de Março pelas 8 horas da noite fui com um carro de esquadrão às trincheiras para retirar a mobília da 2ª Companhia e chegando a Croi Rauge um canhão alemão estava bombardeando a passagem da estrada, paramos ali um pouco em frente a um posto de socorros português, falando para os enfermeiros a ver o que aquilo dava. Eles nos diziam que voltássemos para traz, que não fossemos assim por debaixo do fogo. Passado espaço de uma hora o fogo era mais lento e como tínhamos que ir forçosamente, atiramos quatro chicotadas às mulas, lá seguimos até Laventie, onde chegamos pelas onze horas da noite. Apenas encontramos na arrecadação um soldado o qual nos foi chamar o Primeiro-sargento. Um canhão alemão de groso calibre começou logo a bombardear ali próximo na estação. Metemo-nos n’um falso d’uma casa arruinada enquanto as granadas caíam. Não vinha mais o Primeiro-sargento nem o soldado. Neste momento o canhão parou fazendo a mudança de pontaria. Logo fomos imediatamente para o carro que estava no meio da rua, mas que as granadas começam novamente a cair mais perto e nós logo voltamos para o mesmo lugar um pouco aflitos. As granadas continuavam 

… furiosamente. Não se via por ali, aquela hora, uma viva alma. D’ai por alguns momentos, enquanto o canhão fez outra mudança, nós saltamos a toda a pressa acima do carro, retirando em grande velocidade para o parque. Passadas duas horas ai chegou uma ordenança, para eu voltar outra vez com o carro a Laventie. Eu um pouco aborrecido que à pouco tempo me tinha deitado. Lá fomos, eu e outro rapaz que ia de reserva, chegando a Laventie pelas três horas da madrugada, seguindo logo para a terceira linha aonde íamos chegando perto rebenta um tamanho bombardeamento da parte dos alemães. Começam as sinetas de alarme dando sinal de gazes. Nós logo posemos as máscaras na cara, um pouco atrapalhados, era escuro e mais escuro ficou, não víamos um palmo de terra. As granadas caíam por todos os cantos. Lá fomos caminhando debaixo daquela furiosa tempestade, até que chegamos à casa vermelha e paramos em frente Ali então é que tratei de pôr as máscaras às muares, ajudando-me um Alferes especialista de gazes. O bombardeamento…

… continuava furiosamente ouvindo-se os canhões do outro lado disparar o fogo e as granadas passavam por cima de nós fazendo uma zunida de meter medo. Os estilhaços entrelaçavam por todos os cantos, ouvindo-se bater pelos telhados da casa vermelha. Ali não pensávamos senão na morte. Aí pelas oito horas e meia do dia começou o fogo a abrandar e seguimos como carro ao destino que levávamos. Carregamos a bagagem, logo voltamos para traz, tirando as máscaras. Íamos atravessando as ruas de Laventie e um canhão de grosso calibre ainda estava bombardeando próximo à estação na passagem da rua. Uma granada tinha feito uma grande cova no meio da rua, atirando com grande explosão de terra e cascalho para os lados, fazendo-nos dificuldade na passagem. Seguimos com o carro até que se nos espetou na terra movida. O canhão continuava a bater aquele sítio e nós um pouco atrapalhados descemos abaixo do carro, um de cada lado agarrando em cada nossa vara, demos duas pancadas nas mulas a ver se elas conseguiam arrastar o carro d’ali para fora. O carro começou a seguir e nós um de cada lado a correr até que …

chegamos a uma certa distância aonde já não caiam granadas e então subimos para o carro. Seguimos, descarregar o carro próximo da cidade de Estaires e fomos para o “Parque”.


 Mas como tínhamos encontrado nas ruas de Laventie uma lata de bolacha arrebentada e a gente andava cheia de fome, comemos alguma e levamos o resto para o café, mas como ela tinha apanhado gazes estivemos um pouco incomodados naquele dia.

O bombardeamento continuava sucessivamente de noite e de dia. Algumas granadas caíram nesta tarde próximo do Depósito do Batalhão e o Alferes mandou imediatamente chamar por nós (condutores) afim de lá irmos fazer um abrigo debaixo do chão, o qual nos levou toda a noite. Nestes dias não havia sossego algum tudo andava sobressaltado, porque as granadas caiam constantemente até que se ia aproximando o 9 de Abril, esse dia horroroso em que se travou um dos mais terríveis combates com os portugueses. Desejaria eu, descrever o mais claramente o espectáculo d’este dia, mas não me é possível porque a minha inteligência não mo permite, e por isso vou fazer apenas o que me for possível.

Dia 9 de Abril.

Pelas 3 horas e meia da madrugada se travou este terrível combate com os portugueses ouvindo-se os primeiros tiros. Os alemães começaram bombardeando as trincheiras fortemente e com os canhões de grosso calibre cerrando lá ao longe com milhares de granadas. Os carros de munições da Artilharia portuguesa andaram n’um sarilho enquanto puderam transportando granadas por debaixo do fogo inimigo. O bombardeamento era terrível por toda a parte cortando as estradas e as comunicações telefónicas das trincheiras. Onde quer se viam soldados despedaçados pelos estilhaços da artilharia que se entrelaçavam por entre nós.

Pelas 8 horas da manhã julgaram (os alemães) ter já as trincheiras arrasadas e começaram a avançar saltando fora das trincheiras, a primeira Divisão de assalto. Mas ainda da nossa primeira linha um pouco escangalhada uma metralhadora aqui, ali, estendeu aquela divisão por terra. Continuavam avançando outras divisões mas os portugueses com as metralhadoras estendiam tudo por terra. A artilharia portuguesa fazia fogo vivo enquanto tiveram munições e depois empunharam as espingardas não arreando da beira dos canhões. Os alemães como viam …

… que as metralhadoras portuguesas não cessavam de fazer fogo pediram às artilharias o SOS para as primeiras linhas, a ver se destruíam tudo afim de poderem avançar.

A artilharia volta novamente sobre a primeira linha portuguesa, com milhares de granadas, mas como ainda escapasse alguma metralhadora, ainda não lhes não era fácil o avanço. E por isso atacaram ao nosso flanco esquerdo os Ingleses, os quais recuariam e os alemães vieram cercando, tomando muitos prisioneiros. Ai, então desde que já não, haviam munições, comunicações e tudo estava já desorganizado é que houve a ordem de se salvar quem poder. Neste momento ouve-se no Parque 10 horas do dia o clarim tocar a aparelhar. Fomos a correr por debaixo da tempestade furiosa da metralha, deitando-nos aqui, ali, até que chegamos ao Parque e tratamos e tratamos de aparelhar a toda a pressa. Entregaram-me duas muares convalescentes (mulas em mau estado) e logo segui até à casa onde tinha uma mala com as roupas e equipamentos. Prendi as mulas a um carro que ali chegou para levar as bagagens, e enquanto fomos dentro as muares fugiram com o carro pela estrada fora com o medo das granadas que caiam com toda a força por todos os cantos. Demos a correr deixando ali tudo e logo agarrei as mulas pelas correntes, mas como elas não quisessem andar depressa e o …

… caso não estava muito para vagares deixei-as ficar e montei n’um carro que ia passando em grande velocidade. Um francês que ia à nossa frente fugindo n’um carro de um cavalo, uma granada os despedaça tendo nós que atravessar por cima, seguindo sempre com muito sorte até à povoação de “La Perrette?”. Ai paramos porque as granadas eram mais raras. As estradas iam cheias de tropas, carros, camiões, automóveis, etc.

Através dos campos de La Gorgue só se via caminhar a gente civil das cidades de La Gorgue e de Estaire que fugiam como doidos deixando as suas casas, o seu comércio, a sua cidade, talvez terra Natal. Caminhavam velhinhos que tanto lhes custava a andar. Mulheres, com crianças às costas, deixando tudo e fugindo para bem longe. Aqui ficava um estendido com uma granada, ali ficava outro pedindo ainda aos que fugiam que o socorresse. Mas a aflição de todos era tão grande que não havia tempo para nada. O bombardeamento continuava enquanto os alemães já iam avançando. Aproximaram-se das nossas artilharias, mas as artilharias como já tinham acabado as munições com um martelo pesado, quebraram as culatras móveis dos canhões …

… e agarraram-se às baionetas. Alguns Batalhões fizeram o mesmo assim como infantaria 13, deram uma carga de baioneta esgrimindo corpo a corpo. As ambulâncias andavam a toda a pressa transportando feridos. E nós então, o resto da 4ª Brigada fomos seguindo sempre acompanhados por o fogo da Artelharia. Chegamos a “Lacon” e o nosso General Gomes da Costa


começou logo de ali separar num campo o pessoal dos Batalhões. Mas naquele momento, começam ali a cair granadas naquela povoação que escangalhavam tudo. Um grupo de Chinos que ali andavam a trabalhar começaram logo a fugir pelos campos fora. O General deu logo ordem para seguirem para “Saint Venant” aonde chegamos pela tarde.

 Ao passar nesta vila aparece ali muito baixo um aeroplano alemão descarregando. O nevoeiro era tanto com a fumaçada das granadas que apenas se via a uma pequena distância. Fomos seguindo à margem do canal de Lá-Lys até que chegamos a uma povoação perto da cidade de Aire, ao escurecer cheio de fome. Ali demos palha triga, que tiramos d’um palheiro, d’um francês às mulas e dormimos no mesmo palheiro. Tudo vinha completamente 

… desorganizada, soldados descalços, com barretes Ingleses, com as roupas todas rasgadas dos arames farpados, com capacetes Ingleses, etc. Durante a noite  o bombardeamento continuava, cada vez mais avançadp. As granadas zoniam por cima de nós, para a cidade de Aire, as metrelhadoras ouviam-se como quem estava à beira. No dia seguinte eu e mais alguns condutores, meteusse-nos na ideia de irmos n’um carro de esquadão à frente aonde deixamos as nossas malas, fomos pedir ao nosso Alferes da Administração Militar para nos dar licença e ele como tinha também lá deixado grande valor, assim como as malas resolveu ir também e mais o impedido. Lá fomos uns oito com o carro, chegamos à vila de Merville,


passamos a estação e seguimos a estrada de Lestrem. Adiante estava um Posto de Socorro Inglês de onde as ambulâncias já não passavam. Descemos abaixo do carro e seguimos a pé ao lado. Na estrada só encontramos maqueiros transportando feridos. Fomos seguindo, mas as metralhadoras podiam já alcançar-nos. Neste momento passa um automóvel do Estado-maior para a frente.

Chegamos ao encruzamento da estrada de Lá Gorgue e Lestrem e aí vinha já o automóvel para trás, que não pode seguir d’ali para diante, que as metralhadoras já atingiam aquele ponto. Ao passar por nós parou e o Oficial do Estado-maior falou para o nosso Alferes, perguntando-lhe aonde nós íamos.

Ele lhe disse o nosso destino, ao que ele lhe respondeu: Voltem imediatamente para trás e percam o sentido a tais coisas, que as metralhadoras já cortam aqui e mais vale salvar a vida do que tudo isso. Assim fizemos, voltamos para trás, chegando um pouco adiante, uns maqueiros Ingleses que vinham com um ferido já um pouco cansados chamaram por nós para lho trazer no carro o que lhe fizemos de boa vontade. Chegamos ao posto de socorros a onde estavam uns com os braços escangalhados, outros feridos pelas balas, etc. Metia horror aquele espectáculo. Tiraram a maca do carro e seguimos. Chegando às proximidades de Aire ao escurecer. Já as tropas tinham seguido para Mamentz.


Seguimos para esta povoação chegando lá

pelas oito horas da noite um pouco maçados e cheios de frio. Tratamos em procurar nesta aldeia um palheiro para …

… para pernoitar. Corremos a aldeia toda e não encontramos. Depois sempre arranjamos de abrir a porta d’um coberto aonde não havia palha alguma, mas como tinha n’uma barra uns sacos de muinha tratamos em os votar abaixo e fizemos ali a cama. Pela manhã cedo apareceu-nos o lavrador, todo escamado e com modos arremessantes. Nós não fizemos caso, mas ele foi por um forcado para nós e eu então levanto-me e agarro num engaço e ele então fugiu a pregar. Ali estivemos em Mametz até às duas horas da tarde seguindo depois para a povoação de Dohem, aonde passamos a noite,


n’uma barra de um lavrador. Ai comprei dois ovos que a fome já nos ia apertando. No dia seguinte 12 de Abril seguimos até à povoação de Senlecques, aonde passamos a noite, seguindo no dia 18, através daquelas aldeias até à povoação de Urbersent com destino à praia de Ambleteuse. Mas como as tropas iam muito desorganizados e nestas praias estavam tropas estrangeiras, ficamos em Urbersent, até que nos mobilizasse-mos em condições de aparecer ao público. Neste dia já a fome era tanta que nos obrigava a comer beterrabas, que eram, uns nabos que os franceses davam ao gado no inverno. Ali fomos …

…continuando algum tempo uma revista médica Geral para todos os soldados que nos restavam do 9 de Abril. Calculou-se faltarem onze mil homens. Todos vinham muito arruinados de estarem tanto tempo nas trincheiras, d’aqueles combates e de passarem fome. Ali estivemos até 17 de Maio, sendo-me distribuído um carro d’água, o meu serviço era todos os dias ir a Cormont por um ou dois carros de água para as companhias.


No dia 18 seguimos para a praia de Ambeteuse e como estava muito calor, levei o carro cheio de água para os soldados beberem, mas ao passarmos nas povoações de Nesles , nos apareciam às portas as mulheres com cântaros de água para darem de beber aos soldados o que nós muito agradecemos.. Chegamos há grande floresta de Hardelot e descansamos por espaço de uma hora, enquanto se comia alguma coisa. Seguimos por ali fora, passando pela tarde ao alto da cidade de Boulogne-Sur-la-Mer  donde já avistávamos as terras de Ambleteuse próximo ao mar. Chegamos a esta povoação ao escurecer onde encontramos muitas tropas portuguesas e inglesas. Fomos acampar num montado ou monte espraiado perto do mar.

Passados alguns dias retiramos o Parque lá mais um pouco para o alto, distância de um Km. D’ai vínhamos todos os dias comer ao acampamento e de vez em quanto íamos dar um passeio a cavalo até ao mar entrando nas águas, tudo possível até as mulas não poderem mais. Assim fomos passando por ali aquele tempo um pouco desanimado, vendo que não havia meio de voltarmos à nossa terra. Em vez de virmos para Portugal, estávamos preparando novamente para voltar para a frente, para assistirmos a um contra-ataque ofensivo que se ia preparar para recompensar aos Alemães a fineza do 9 de Abril, o que mais tarde sucedeu, obrigando-os a ceder todo o terreno que nos tinham tomado. Passado algum tempo achei-me muito doente na barraca onde estive dois dias com dores de cabeça e tremuras. Os meus companheiros deram parte ao Sargento o qual mandou logo preparar o carro da messe para ir a doentes ao acampamento, aonde cheguei e o doutor mandou-me logo para o hospital numa maca indo para a enfermaria dos tuberculosos. Passados oito dias comecei-me a sentir um pouco melhor.

Mas como era tratado de uma tuberculose pulmonar, o Doutor apontou-me logo para a junta médica e eu como ia passando um pouco melhor estava-me sentindo bom. Passadas três semanas fui proposto para a junta dando-me trintas dias de licença para convalescer em França, sendo no fim presente a nova junta. Mas como nessa ocasião tinha chegado de Portugal o General Tamagnini Barbosa e logo foi ao hospital proibir as licenças de três meses a Portugal. Dali fui para o Depósito de Infantaria, aonde o serviço era apenas comer e dar o meu passeio por aquela Praia de Ambleteuse. Passado mês e meio o Primeiro-sargento mandou-me para ir para a frente, mas como estava proposto para a nova junta fui ter com o Comandante da Secção o qual já me não deixou ir, sem ir à junta. Logo no dia seguinte deram-me uma guia para ir ao hospital à junta na qual fiquei pronto a todo o serviço militar. Ali quase que todas as noites vinham os raids boches fazendo por ali grandes bombardeamentos, procurando a cidade de Boulogne-sur-la-mer. D’ai por alguns dias, fui requisitado para a secretaria do Departamento de Infantaria, aonde fui continuando, não sendo muito serviço de escrituração. D’ali por alguns dias o …

… Sargento-ajudante, arranchou-me com os Sargentos. Pela manhã ali nos apareciam as ordenanças para nos ir pelo café. Dormíamos na secretaria. Mais tarde fui devolvido o Depósito e como a ordem era para seguirem para a frente todos os soldados que estavam prontos ao serviço, eu e um colega Primeiro-cabo de Braga, também contávamos com ir, mas fomos trabalhando sempre durante o dia e noite a fazer as guias-de-marcha e transferência. Dois Sargentos que estavam incumbidos, assim que souberam a noticia trataram logo de ir para o Quartel-general a ver se arranjavam de lá ficar como amanuense mas como não conseguiram foram para a frente. E nós os dois tendo já feito também as nossas guias, ai pela meia noite disse o Alferes-ajudante para o Tenente. Estes dois rapazes estão aqui a esta hora a trabalhar e também tem as guias prontas para amanhã ir para a frente. Por isso meu Tenente será uma injustiça porque estes dois rapazes tem aqui sido sempre ao serviço e os Sargentos logo que souberam da ordem, levantaram logo ferro não parando mais na Secretaria. Falaram para o Segundo Comandante que era o que estava o qual disse, pois não vão com minha ordem. E nós logo todos contentes rasgamos…

… as nossas guias. Pelas quatro horas da manhã seguinte, ali chegou o Comandante encontrando-nos ainda a escrever o qual disse para nós: Então vocês não se preparam para seguir. E nós lhe respondemos que não íamos com ordem do Nosso Major. Naquela manhã lá seguiram para a frente uns trezentos e oitenta homens, e nós ali ficamos até que d’ai por algum tempo foi dissolvido por completo, indo eu para a Secretaria das Q.B., o qual ficava mesmo chegado ás ondas do mar. Ali o meu serviço era muito pouco, todos os dias ia pela manhã ao Quartel-general e pouco mais fazia. Passados alguns meses comecei-me ai a aborrecer de ali estar. Um dia fui ao Quartel-general e um primeiro-cabo telegrafista que lá estava meu conhecido me disse se eu queria ir para a cidade de Boulogne-sur-la-mer para o correio geral. E eu logo disse que sim, sem falar com o meu Comandante que era o Sr. Capitão Martins de Cavalaria 11 de Braga. Fomos logo ter com um Capitão de engenharia à secretaria, que era o que arranjava estas transferências, o qual me disse se eu então queria ir para o correio para Boulogne. Respondi-lhe logo que sim, perguntando-me ele quem era o meu comandante e se eu sabia onde estava. Eu lhe respondi que o…

… tinha encontrado n’aquele instante na Secretaria da Policia. Logo lhe falou pelo telefone, dizendo-lhe se ele lhe dispensava aquele rapaz que tinha na secretaria. Ele lhe respondeu que vinha falar com ele ao Q.G.B., chegando n’aquele instante pela secretaria dentro encontrando-me a mais o Capitão o qual lhe disse é este. Queria que mo dispensasses para ir substituir um 1º cabo a Boulogne. Ele lhe respondeu que me dispensava, se lhe arranja-se outro que lhe fizesse o meu lugar, ao que lhe respondeu que sim. No dia seguinte tinha eu de ir para Boulogne, mas achei-me muito doente, mas como tinha de ir não quis ir a doentes a ver se melhorava. Mas cada vês a pior. Naquele dia à tarde vinha a sair pela Secretaria fora com destino de ir para a barraca que ficava um pouco distante para me deitar. Um Sargento chama por mim e disse para eu lhe ir ao Forte levar uma Ordem, e eu um pouco aborrecido sempre fui. Pois foi a minha sorte, porque cheguei lá e encontrei um Sargento da Companhia da Saúde a passar revista ao pessoal do Forte, em vês do Doutor, alem de não serem as horas da revista, mas como a gripe pneumónica estava alastrando muito e o Doutor não pode vir, mandou o Sargento. Logo que me viu entrar por a porta dentro conheceu…

… que eu estava muito doente e me perguntou se eu também vinha a doentes. Respondi-lhe logo que sim e ele me revistou mandando-me logo para o hospital e mais dois num automóvel da Companhia de Saúde. Cheguei ao hospital cada vês a gripe me atacava mais. Não podia estar de forma alguma. Durante dez dias não comi absolutamente nada, só me lembrava que não resistia a tal moléstia, e mais me incomodava ao ver morrer ao meu lado tantos colegas com a mesma doença. Levei dezoito injecções nos braços as quais custavam muito a sofrer. Enfim, passei ali aqueles dias no meio da mais profunda tristeza, lembrando-me que resisti aos perigos das trincheiras e que por fim em vês de ir para Portugal morreria no hospital. Passados os dez dias comecei a melhorar e a comer alguma coisa mas com pouco apetite. Mais tarde fui evacuado para seguir para Portugal num vapor hospital que tinham requisitado para levar os doentes. Mas como os doentes atingiram o número que o Vapor podia levar, ficaram alguns dos que estavam melhores, sendo eu, um deles.

Mas depois o Doutor propôs-me para uma junta médica, a qual teve lugar no dia 21-04- 1919 e pela qual nos foram arbitrados trinta dias de licença…

… para convalescer em Portugal. Continuamos ali à espera da confirmação durante trinta dias. No dia quatro de Maio, tivemos alta para seguirmos para o porto de embarque, mas chegamos ao Comando Militar de Ambleteuse aonde tínhamos de receber o itinerário para seguir e nos mandaram outra vês para o hospital, até segunda ordem. No dia cinco do mesmo mês de Maio, recebemos novamente ordem para seguirmos. Chegamos à cidade de Boulogne às cinco horas da tarde, dando d’ali partida às 10h30 da noite e chegamos a Paris às 08H30 do dia seis.

Nesta cidade demos por ali alguns passeios de eléctrico e automóveis, admirando a beleza d’aquela cidade. Ao meio dia embarcamos outra vês no comboio que seguia para a cidade de Cherbaurz (porto de mar), aonde chegamos à uma hora da noite do dia seguinte. Seguimos para o acampamento que ficava à distância de 4 horas da estação.


Mas como carregados e um pouco maçados da viagem para percorrermos 4 léguas. Chegamos ao acampamento ao acampamento às 3 horas da madrugada e fizemos a nossa apresentação no Comando do Quartel-general, aonde nos mandaram apresentar na Companhia de Adidos, afim de sermos repatriados. Ali ficamos adidos `espera de embarque. Mas como ali era pelos mais…

… antigos que ali tinham chegado, fomos esperando até que viesse a nossa vez. E como não fazia serviço nenhum por vir com licença da Junta, ia por ali dando o meu passeio de vez em quando.

No dia 19 de Maio fui dar um passeio até à cidade de Cherbourg, pela beira mar, apreciando por ali aquelas embarcações que ali estavam n’aquele Porto, e como era Domingo fui ter a um jardim público aonde se encontrava uma banda de música Regimental Portuguesa a tocar lindas peças que os Franceses muito apreciavam. Em seguida fui visitar o Forte do Roule, construído por Napoleão 1º, o qual fica apoiado n’um rochedo a uma altura muitíssimo elevada e muito próximo ao jardim d’onde se avistavam largas terras e mar. Este, um dos fenómenos mais importantes da Cherlourg. Fui passando estes dias por Cherbourg, muito ansioso por seguir para Portugal, mas como ali não fazia serviço ia dando os meus passeios por aquelas florestas. Naqueles dias de calor de Maio, para distrair. No dia 20 de Maio passei a tarde no adro de Tourlaville à sombra das frescas árvores que estendiam seus ramos sobre nós, enquanto o som de um violam e bandolim entoava, fazendo ali parar muitos soldados ingleses, apreciando os dois artistas portugueses. O sol ia…

…descendo por entre as nuvens enquanto seus raios reflectiam sobre as ondas do oceano no porto de Cherbourg. Eram alguns destes bocados de tempo que nos faziam distrair alguma coisa porque as saudades por Portugal já eram muito elevadas. Neste momento ouvimos o clarim tocar a recolher. Seguimos para o acampamento que ficava à distância de quatrocentos metros. Assim fomos passando por ali aqueles dias sempre a ver quando chegava o vapor.

No dia 24 de Maio recebemos ordem para nos prepararmos e recebermos as guias para no dia 25 pela manhã embarcarmos. Pois era esta mesma a notícia pela qual nós suspirávamos. No dia 25 de madrugada tocou a alvorada e tudo se levantou imediatamente no meio da maior alegria. Dois camiões vieram-nos receber a bagagem para levar ao Vapor que ficava ainda bastante longe. Em seguida fomos tomar o café e logo seguimos debaixo de formatura através das ruas de Cherbourg , dizendo adeus aquela gente francesa que nos viam passar. Uma banda de música portuguesa nos acompanhou até ao Vapor.

Que alegria neste dia, sentiam, os nossos corações, além de isto ainda nos parecer mentira.

Chegamos ao Porto e entramos logo para o Vapor o qual logo deu partida pelas dez horas. Neste momento dissemos adeus a França que tanto sacrifício nos causou. Tanta vez, chegamos n’aqueles campos da batalha a perder a esperança de voltar à nossa Pátria, à nossa terra querida, aonde permanecemos os primeiros dias da nossa infância. Tanta vez no meio d’aqueles furiosos combatentes em que uma tempestade tão furiosa passava por entre nós, deixando muitos dos nossos camaradas prostrados por terra, nós perdíamos a esperança de voltar a Portugal.

Que alegria e felicidade para todos que voltamos. Mas não podendo deixar de recordar todos aqueles que nos campos da honra derramaram a sua última gota de sangue em defesa da liberdade. Pelas dez horas da manhã demos partida e o mar estava muito manso e por isso a nossa viagem foi muito linda. Vim sempre na proa do vapor a ver quando com a vista apareceria terras portuguesas. Mas apenas no dia 28 de Madrugada é que começamos a avistar terras portuguesas.

Chegamos a Cascais o Vapor parou para entrar o Piloto. Seguimos e logo entramos pelo…

…Tejo acima na maior alegria, porque já dos dois lados do rio nos saudavam a nossa chegada, as mulheres que estavam lavando nos saudavam com lenços brancos. Ao chegar a Lisboa no Vapor começou a gritar, dando sinal de alarme à sua chegada e neste intervalo deu uma volta no Tejo. Logo avistamos grande movimento na cidade, dirigindo-se para o Arsenal da Marinha aonde embarcamos.

Uns em lanças de volta do Vapor, perguntando-nos por diversos soldados que nós nem conhecíamos.

Ali se apresentou logo a música da <guarda Republicana e diversos oficiais do Estado-Maior.

Ao descermos do Vapor nos esperavam as senhoras da Cruzada Vermelha Portuguesa, oferecendo-nos como brinde à nossa chegada um chá e algumas bolachas a cada soldado. Que alegria a nossa, quando já nas encontrávamos em Portugal. Já toda a gente nos compreendia o que nós, já estranhávamos. Desembarcamos e seguimos para o Quartel das Janelas Verdes aonde estivemos até ao dia seguinte às duas horas da tarde. Durante este tempo andei passeando pela cidade nos pontos mais principais, assim como Avenida Central, Terreiro do Paço, etc. Às duas horas da tarde…

… fomo-nos apresentar afim de seguirmos para a estação do caminho de ferro. Arranjei um rapaz para me levar a mala que pesava bastante.

Demos partida de Lisboa às quatro horas da tarde do dia 29 de Maio de 1919. A viagem terrestre da nossa chegada foi com muita alegria por nos encontrarmos em Portugal o que ainda nos parecia mentira. No Entroncamento Real, seguiu Infantaria 22 na linha do Sul para a cidade de Abrantes e nós caminhamos para Braga chegando pela madrugada a Vila Nova de Gaia. Nesta Estação os soldados saíram fora entrando logo em seguida pela carruagem dentro com um cabás de sardinhas e alguns soldados começaram logo a comer mesmo cruas e em jejum. Chegamos à Estação de Campanhã, Porto e tivemos ali demora duma hora, indo passear até fora da Estação. Como ali mudamos de carruagem, ficou o cabás das sardinhas. Às oito horas demos partida do Porto, chegamos a Nine, desembarquei e e deixei a mala na loja do Barbosa e vim para casa, indo-me apresentar a Braga no Quartel no dia seguinte, desde que fiquei gozando a licença por 90 dias com vencimento.

 

Canções da Guerra


Trincheiras

Nos abrigos das trincheiras

Vejo-me em guerra metido

Sujeito meu coração

Às balas do inimigo

 

Só quem nos pode valer

Ó meu Deus Omnipotente

Livrai toda esta gente

D’aqui na França morrer

 

Quase, que nos quer parecer

De luto vem a faca

Muito pode chorar

Coimbra, Figueira e Lisboa

Morre aqui tanta pessoa

Da guerra continuar

 

Despedi-me de Portugal

Com as mãos nas algibeiras

Os meus olhos eram beiras

Que nunca tinham final

 

Eu vim embarcado n’um trem

Despedi-me de meu pai e mãe

 

Um apartamento em vida

É triste a nossa saída

Que nenhum de nós ficará bem

 

Nós cá vamos para a guerra

Para auxílio dos aliados

E seremos amortalhados

Mesmo nas próprias trincheiras

 

São portugueses, são sozinhos

Morrem como passarinhos

Chegado ao ataque final

Perderemos todos os carinhos

 

 

Vida de cavanço

Cavai, cavadores, cavai

Que o cavar é doce e bom

Até cava aquele que vai

De passagem ver a frente

 

Cavam nas primeiras linhas

O Alferes e o soldado

 

 

 

Quando deles se avizinha

Um morteiro dos pesados

 

Tudo cava lá na frente

Mesmo nas segundas linhas

O Capitão e o Tenente

E o pessoal das casinhas

 

Um pouco mais à retaguarda

Onde já não há morteiros

Quando vai qualquer granada

Cava Major e parceiros

 

No Comando da Brigada

Tudo cava n’um estante

Para fugir à casqueirada

Cavem para o subterranso

 

Cava-se de noite e dia

Em qualquer ocasião

Também cava a Artelharia

Ao bater-lhe a posição

 

Cava o nosso General

Se vai visitar a frente

 

 

 

 

 

 

Doutores cavam nos hospitais

Tudo cava minha gente

 

Nesta vida de cavanço

O cavar como se vê

Se o boche dá um avanço

Cava to o C.E.P.

09 de Abril de 1918

 

O cigarro e o Soldado

 

Passo frio passo fome

O soldado até não dorme

Nada tem nada lhe dói

O cigarro é uma ilusão

Como a força do Leão

A bravura d’um boi

 

O cigarro é um amigo

Quer na paz ou quer no perigo

Dá conforto e dá prazer

Ao falar-lhe a gente sente

O cigarro arde contente

Por nos saber compreender

 

 

 

Lá na terra estrangeira

Quando estivar na trincheira

Metendo a mão ao bornal

Puxarei da cigarrada

Que trouxe da Pátria amada

Que trouxe de Portugal

 

Lá nos campos da batalha

Entre a fúria da metralha

Tudo leva numa aragem

Cigarro é um achado

Que trás ao pobre soldado

Alegria e coragem

 

Hino da 4ª Brigada do Minho

 

Larguei a enxada e o arado

No telheiro ao pé da eira

Agora aqui vou soldado

Hei-de me mostrar bem capaz

A tanta tropa estrangeira

A minha não fica atrás

 

 Quarta Brigada

 O Minho em nós confia

Seu nome honrado

Entregue em nossas mãos

E seu nome que soam

De sempre à valentia

Os quatro Batalhões

Unidos como irmãos

Tudo é a mesma família

Que nos a ‘de servir de guia

 

Por ti terra abençoada

De quem Deus é padrinho

Onde Deus palpita.

Em cada coração

Doce país do Minho

 

Onde plantadas pelas minhas

Se espreguiça e verdeja

A latada do vinho

Lado a lado

Sempre a servir para

Os campos do pão

 

Ó Minho ó meu País

Onde Deus dos vales aos

Dos pinheirais, das serras

Não há palmo de terra

Que não tenha raiz

 

Canção da Liberdade

 

Braço, armas! Deixa tudo

O teu amor é a tua leira

A Pátria chama por Ti

Dá-lhe a tua vida inteira

 

Tem frutos o teu pomar

Tem cachos a tua vinha

 

 

 

 

O que esperas se adivinha

Lavrador no teu olhar

Pudesse o tempo aguentar

Tuas venturas

Contudo há quem, há quem te salve desnado

Como os mendigos da estrada

Larga pois a tua enxada

Braço, armas! Deixa tudo

 

A leira que te dá o pão

A avelha que te dá o mel

Cairiam na mão cruel

Desse estrangeiro, o Alemão

Esmaga o seu tacão

Perdida a Pátria, e a bandeira

Seria a terra inteira

Escravo sem fé, nem lar

Luta pois, se queres guardar

O teu amor à tua leira

 

Nasceste livre na vida

Livre desejarás morrer

Mas se a Alemanha vencer

A liberdade é perdida

 

 

 

 

 

 

Verás a Pátria vencida

Perdido este solo aqui

Aonde o passado ainda ri

Da tua espada ao sol brilhante

Eia pois o soldado avante

Braço armas! Deixa tudo

 

 

General Foch

(Ferdinand Jean Marie Foch)

 

Morre em noite de trágico clarão

Do incêndio que o bárbaro soprou

Começa a ter castigo a vil traição

Que a cultura germana gerou

 

Aos nossos lábios sobe uma oração

Sobre o mundo o sol de novo brilha

E que o ódio vale menos que a razão

Mais uma vez se agora provou

 

Está perto a vitória… É ter esperança

O Alemão recua; Glória à França

E glória a Foch o novo Marechal

É ter esperança, é ter esperança 

Ainda desta vez a sorte quis

Que não jantasse o Kaiser em Paris

A cozinha francesa faz-lhe mal

É ter esperança, é ter esperança

 

 Ainda desta vez a sorte quis

Que não jantasse o Kaiser em Paris

A cozinha Francesa faz-lhe mal

Glória a Foch, o novo Marechal

 

 

Trincheiras

 

Aos abrigos das trincheiras

Ouço troar o canhão

Ando de rasto como a cobra

Habito debaixo do chão

 

Vim para a França combater

A tudo ando disposto

Nunca abandono o meu posto

Prefiro até morrer

 

Também se sente bater

A metralhadora ligeira

Anda tudo n’uma fobia

Fugindo de canto em canto

Com vinte e quatro anos me encontrei

Ao abrigo da trincheira

 

Ali me ponho a escutar

Oiço picar os morteiros

Médios, pesados e ligeiros

São todos de arrepiar

 

Também sinto rebentar

As granadas de mão

Lançadas pelo alemão

Do posto de granadeiros

 

Faz tremer o mundo inteiro

Só o troar do canhão

Sente-se a terra tremer

Do fogo da Artelharia

Só o soldado de Infantaria

E que mais lhe calha perder

 

De dia tem que fazer

Construindo qualquer obra

Fazendo sua manobra

A noite sai de patrulha

E para evitar fazer bulha

Ando de rasto como a cobra

 

Não tiro outro produto

De andar a combater

No dia em que eu morrer

Meus Pais ficaram de luto

 

 

 

Seja o homem mais resoluto

Faz tremer o coração

No campo da produção

É ditoso quem tem sorte

Para me livrar da morte

Habito debaixo do chão

 

Por Armindo Joaquim Borges 1º cabo de Inf. 6 – em campanha 22/06/1919

 

 

Despedida do Norte de França

 

 

Adeus ao Norte de França

Aonde eu estive isolado

Com os troar dos canhões

Acordando sobressaltado

 

Adeus minha mãe tão querida

De novo a venho abraçar

Somente para lhe contar

As mágoas da minha vida

 

A Alemanha está vencida

Há força de tanta aliança

Cheguei a perder a esperança

De voltar a este País

Mas de sorte eu fui feliz

Adeus ó Norte de França

 

Uma carta de um soldado no hospital a sua mãe

 

Vou escrever à minha mãe

D’um quarto no hospital

Quero-lhe dizer adeus

Antes do dia final

 

Leia o que esta carta diz

Escrita por minha mãe

D’onde lhe peço perdão

Das ofensas que lhe fiz

 

Tão longe do meu País

Sem carinhos de alguém

Conheço quem me quer bem

Não me posso esquecer

Por isso antes de eu morrer

Vou escrever à minha mãe

 

Quando a esta terra cheguei

Pensei em a mandar vir

Eu que tanto trabalhei

Mas não pude conseguir

Esse fim que desejei

 

Eu que tanto trabalhei

E logo me senti mal

Não ajuntei capital

Para voltar à Pátria querida

 

 

 

 

 

 

 

Contar-lhe a minha vida

N’um leito do hospital

 

 

 

 

 

Sonhar desamparado

Morro em terra estrangeira

Se a tivesse à cabeceira

Morreria mais descansado

 

De todos, abandonado

Eu ergo os olhos ao céu

Para pedir ao bom Deus

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se compadeça de mim

Antes da minha vida dar fim

Quero-lhe dizer Adeus

 

As linhas que eu vou traçando

Já é pelo esforço que faço

Sinto cansado o braço

As forças me vão faltando

 

Já se vai aproximando

A hora funesta fatal

Sinto um frio decial

Respiro com dificuldade

Vou partir para a eternidade

Adeus! Até ao dia final

 

Em campanha – France

 José Gomes Pereira

Minhoteira

Arnoso Santa Eulália

Vila Nova de Famalicão

 

 

 

 


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