1ª Guerra Mundial (Batalha de La-Lys)

 1ª Guerra Mundial (Batalha de La-Lys)

 

 

Faz hoje, cem anos que terminou por armistício, a 1ª grande guerra, e para o assinalar deixo aqui um enxerto das memórias escritas, deixadas pelo meu Avô, José Gomes Pereira que viveu de perto e por dentro os momentos cruéis, que o CEP passou nas trincheiras quer ao nível de falta de organização, Condições miseráveis e até de Comando.

Nota: O texto foi copiado do diário, tentando ser fiel à escrita daquela altura e preservando os termos e frases por ele, ai usados.

 

… Chegando um pouco adiante, começam a cair granadas ao lado esquerdo e o meu chefe de carro atirou-se abaixo metendo-se numa valeta da estrada e eu um pouco precipitado sem saber o que havia de fazer, atirei quatro chicotadas às muares e dentro em pouco tempo cheguei ao parque e comecei a desarrear. Neste momento vem um aeroplano boche por cima das baterias de Artelharia na minha direcção descarregando bombas e a minha sorte foi ao chegar próximo elas acabaram-se-lhe. Assim fomos passando este tempo por Vieille-Chapelle, enquanto o Batalhão estava nas trincheiras, oito dias dentro, oito dias fora sempre debaixo da fúria da metralhadora passando noites de tempestade ao parapeito enquanto os morteiros pesados, médios e ligeiros avançavam pelos ares fazendo um pranto de arrepiarem os cabelos. A Artelharia de vez em quanto batia as trincheiras pedindo-se o S.O.S. Aonde quer ficava um posto escangalhado e meia dúzia de soldados feridos e outros mortos, era horroroso o espectáculo das trincheiras. Pelos ares, de noite passavam os raides aéreos dum lado para o outro com destino às grandes cidades, acampamentos militares e fábricas de munições.

No ar estavam os observadores, suspensos nos balões cativos afim, de observarem os movimentos inimigos, o mesmo que se dava também com os Alemães. Os combates mais furiosos eram durante a noite. Assim fomos passando estes dias de inverno de Setembro, Outubro e Novembro de 1917 por Vieille-Chapelle sendo tanto o gelo que muitas as vezes, que nem os carros podiam caminhar pela estrada porque os cavalos ou muares escorregavam e caiam. Muitas as vezes que os soldados morriam gelados nos postos de escuta. As águas gelavam, chegando-se algumas vezes a passar-se sede por as águas estarem coalhadas. Próximo das trincheiras tudo era uma completa ruína, os campos estavam todos cavados pela Artilharia e ensarilhados de arame farpado, afim de evitar um avanço rápido. Tudo estava cheio de trincheiras de reserva, as casas estavam todas escangalhadas.

Todos os dias os carros de munições transportavam munições e géneros para as tropas, não se olhando ó sol nem à chuva. A Artilharia bombardeava constantemente por todos os pontos.

Nos últimos dias de Dezembro, retiraram em descanso para a cidade de La Gorgre por …

 La Gorgue - França.JPG

…por um mês. Chegamos a La Gorgue no último dia de Dezembro de 1917 o tempo mais frio deste inverno. Por não termos casa para passar a noite, dormi num campo próximo a um silvado, embrulhado em sete mantas, mas quando cheguei pala meia-noite estava completamente gelado, ficando-me sempre na memória o estrepasse de 1917 para 1918.

Ali estive até 15 de Janeiro dia em que baixei ao hospital de Saint Venent que ficava à distância de duas léguas.

Saint Venant - França.JPG

Mas como o Hospital estava cheio, fiquei numa enfermaria coberta a lona, num campo muito frio. Ao fim de oito dias tive alta, indo novamente para La Gorgue. Nesta cidade apenas se fazia alguma guarda à cavalaria e algumas viagens com o carro. Era muito próximo das trincheiras. Em sete de Fevereiro deu novamente entrada nas trincheiras o Batalhão de Infantaria 8 no sector de Laventie, indo eu com o carro levar a Mobília duma companhia.

Laventie - França.JPG

O parque mudou-se para os arrabaldes da cidade. Nesta Vila de Laventie ainda se encontrava muita gente civil, assim como muitas casas de comércio, mas assim que ali chegou o nosso Batalhão, os Alemães começaram…

… de bombardear a Vila, causando-lhe grandes ruinas e matando alguns soldados dos que ali se encontravam. D’ai por oito dias o Batalhão veio para a Vila, afim de descansar 6 dias e os soldados entravam naquelas casas arruinadas procurando garrafas de vinho e alguma coisa que comer. Assim se foi passando este tempo, até que nos princípios de Março é que começaram os verdadeiros combates com os portugueses. Todos os dias caiam granadas de grosso calibre pelos arrabaldes de La Gorgue, procurando o Quartel-general da 2ª divisão e os parques da 4ª Brigada. Todos os dias íamos com os carros levar os géneros a Laventie e pelos lavradores comprando batatas e coisas.

Na noite de 9 para 10 de Março estava de guarda à cavalariça, e tendo deixado a máscara dos gazes num coberto de um lavrador, aonde costumávamos dormir, mas que aí por uma hora da noite, começaram a cair granadas de gazes e explosíveis à volta da cavalariça, e eu levanto-me um pouco aflito por não ter a máscara comigo e fui a correr busca-la para assim resistir aos gazes asfixiantes, que eram uma das coisas mais terríveis desta guerra, e era-nos mesmo proibido andar sem ela na zona de guerra.

Mas não a pus logo na cara enquanto não conheci o cheiro aos gazes. As granadas continuavam vastamente naquele ponto fazendo-nos andar para a esquerda em linha com a barriga a rasto. Mas como naquele lugar se colocou uma Bateria Inglesa, todos os dias ali faziam fogo de barragem e explosível. Chegamos pelas duas horas da noite ali, começavam a cair granadas e nós agarrávamos na máscara e alguma manta e fugíamos d’ali para fora, indo passar o resto da noite encostados a alguma moeira? de palha triga ou em algum coberto de lavrador. Quando o fogo abrandava lá íamos tomar o café, mas sempre com a orelha fitada a ver quando vinha mais casqueirada. Assim fomos continuando, até que aí por 15 de Março uma manhã eu tinha que arrear uma parelha para ir a Ponte Riquel, buscar os géneros para o Batalhão, as granadas caindo em volta do parque constantemente, e eu com bastante receio, mas tinha que ir forçosamente nem que chovessem granadas, arreei a parelha. Lá fui todo apressado e comecei de arrear, e logo duas granadas vieram cair encostadas à cavalariça. Eu estendi-me imediatamente no chão fugindo de gatas por a cavalariça dentro…

… a grande explosão de terra e estilhaços caiu por cima da cavalariça. Neste momento as mulas fugiram espavoridas e eu levantei-me fugindo imediatamente d’ali para fora. As granadas continuavam e logo mataram um Impedido e cavalo do Quartel-general (rapaz de S. João de Bastuço o Marinho). Fui novamente à cavalariça por as muares acabando de as arrear um pouco retirado. Os dias iam passando, os bombardeamentos cada vez mais continuados. Nós já esperando uma grande ofensiva dos Alemães, pelos movimentos que ouvíamos durante a noite, transportando canhões para a nossa frente e retirando os da frente Russa. O General Comandante do C.E.P. foi avisado por o General Inglês, oferecendo-lhe tropas de reforço, o que ele não quis, dizendo que fazia confiança nas suas tropas. Tratou-se logo de retirar a arrecadação mais para a retaguarda. Os condutores todos os dias iam com carros transportar as mobílias aos civis que que não tinham carro para retirarem. Um dia fui com o carro à Villa de Laventie em 18 de Março, por umas malas dos Oficiais, apenas retiro com o carro duzentos metros e já as granadas caíam por a casa abaixo escangalhando tudo. Assim fomos continuando até que no dia …

… 20 de Março pelas 8 horas da noite fui com um carro de esquadrão às trincheiras para retirar a mobília da 2ª Companhia e chegando a Croi Rauge, um canhão alemão estava bombardeando a passagem da estrada, paramos ali um pouco em frente a um posto de socorros português, falando para os enfermeiros a ver o que aquilo dava. Eles nos diziam que voltássemos para traz, que não fossemos assim por debaixo do fogo. Passado espaço de uma hora o fogo era mais lento e como tínhamos que ir forçosamente, atiramos quatro chicotadas às mulas, lá seguimos até Laventie, onde chegamos pelas onze horas da noite. Apenas encontramos na arrecadação um soldado o qual nos foi chamar o Primeiro-sargento. Um canhão alemão de groso calibre começou logo a bombardear ali próximo na estação. Metemo-nos n’um falso d’uma casa arruinada enquanto as granadas caíam. Não vinha mais o Primeiro-sargento nem o soldado. Neste momento o canhão parou fazendo a mudança de pontaria. Logo fomos imediatamente para o carro que estava no meio da rua, mas que as granadas começam novamente a cair mais perto e nós logo voltamos para o mesmo lugar um pouco aflitos. As granadas continuavam …

… furiosamente. Não se via por ali, aquela hora, uma viva alma. D’ai por alguns momentos, enquanto o canhão fez outra mudança, nós saltamos a toda a pressa acima do carro, retirando em grande velocidade para o parque. Passadas duas horas ai chegou uma ordenança, para eu voltar outra vez com o carro a Laventie. Eu um pouco aborrecido que há pouco tempo me tinha deitado. Lá fomos, eu e outro rapaz que ia de reserva, chegando a Laventie pelas três horas da madrugada, seguindo logo para a terceira linha aonde íamos chegando perto rebenta um tamanho bombardeamento da parte dos alemães. Começam as sinetas de alarme dando sinal de gazes. Nós logo posemos as máscaras na cara, um pouco atrapalhados, era escuro e mais escuro ficou, não víamos um palmo de terra. As granadas caíam por todos os cantos. Lá fomos caminhando debaixo daquela furiosa tempestade, até que chegamos à casa vermelha e paramos em frente Ali então é que tratei de pôr as máscaras às muares, ajudando-me um Alferes especialista de gazes. O bombardeamento…

… continuava furiosamente ouvindo-se os canhões do outro lado disparar o fogo e as granadas passavam por cima de nós fazendo uma zunida de meter medo. Os estilhaços entrelaçavam por todos os cantos, ouvindo-se bater pelos telhados da casa vermelha. Ali não pensávamos senão na morte. Aí pelas oito horas e meia do dia começou o fogo a abrandar e seguimos com o carro ao destino que levávamos. Carregamos a bagagem, logo voltamos para traz, tirando as máscaras. Íamos atravessando as ruas de Laventie e um canhão de grosso calibre ainda estava bombardeando próximo à estação na passagem da rua. Uma granada tinha feito uma grande cova no meio da rua, atirando com grande explosão de terra e cascalho para os lados, fazendo-nos dificuldade na passagem. Seguimos com o carro até que se nos espetou na terra movida. O canhão continuava a bater aquele sítio e nós um pouco atrapalhados descemos abaixo do carro, um de cada lado agarrando em cada nossa vara, demos duas pancadas nas mulas a ver se elas conseguiam arrastar o carro d’ali para fora. O carro começou a seguir e nós um de cada lado a correr até que …

… chegamos a uma certa distância aonde já não caiam granadas e então subimos para o carro. Seguimos, descarregar o carro próximo da cidade de Estaires e fomos para o “Parque”.

Estaires - França.JPG

Mas como tínhamos encontrado nas ruas de Laventie uma lata de bolacha arrebentada e a gente andava cheia de fome, comemos alguma e levamos o resto para o café, mas como ela tinha apanhado gazes estivemos um pouco incomodados naquele dia.

O bombardeamento continuava sucessivamente de noite e de dia. Algumas granadas caíram nesta tarde próximo do Depósito do Batalhão e o Alferes mandou imediatamente chamar por nós (condutores) afim de lá irmos fazer um abrigo debaixo do chão, o qual nos levou toda a noite. Nestes dias não havia sossego algum tudo andava sobressaltado, porque as granadas caiam constantemente até que se ia aproximando o 9 de Abril, esse dia horroroso em que se travou um dos mais terríveis combates com os portugueses. Desejaria eu, descrever o mais claramente o espectáculo d’este dia, mas não me é possível porque a minha inteligência não mo permite, e por isso vou fazer apenas o que me for possível.

Dia 9 de Abril

 

Pelas 3 horas e meia da madrugada se travou este terrível combate com os portugueses ouvindo-se os primeiros tiros. Os alemães começaram bombardeando as trincheiras fortemente e com os canhões de grosso calibre cerrando lá ao longe com milhares de granadas. Os carros de munições da Artilharia portuguesa andaram n’um sarilho enquanto puderam transportando granadas por debaixo do fogo inimigo. O bombardeamento era terrível por toda a parte cortando as estradas e as comunicações telefónicas das trincheiras. Onde quer se viam soldados despedaçados pelos estilhaços da artilharia que se entrelaçavam por entre nós.

Pelas 8 horas da manhã julgaram (os alemães) ter já as trincheiras arrasadas e começaram a avançar saltando fora das trincheiras, a primeira Divisão de assalto. Mas ainda da nossa primeira linha um pouco escangalhada uma metralhadora aqui, ali, estendeu aquela divisão por terra. Continuavam avançando outras divisões mas os portugueses com as metralhadoras estendiam tudo por terra. A artilharia portuguesa fazia fogo vivo enquanto tiveram munições e depois empunharam as espingardas não arreando da beira dos canhões. Os alemães como viam …

… que as metralhadoras portuguesas não cessavam de fazer fogo pediram às artilharias o SOS para as primeiras linhas, a ver se destruíam tudo afim de poderem avançar.

A artilharia volta novamente sobre a primeira linha portuguesa, com milhares de granadas, mas como ainda escapasse alguma metralhadora, ainda não lhes não era fácil o avanço. E por isso atacaram ao nosso flanco esquerdo os Ingleses, os quais recuariam e os alemães vieram cercando, tomando muitos prisioneiros. Ai, então desde que já não, haviam munições, comunicações e tudo estava já desorganizado é que houve a ordem de se salvar quem poder. Neste momento ouve-se no Parque 10 horas do dia o clarim tocar a aparelhar. Fomos a correr por debaixo da tempestade furiosa da metralha, deitando-nos aqui, ali, até que chegamos ao Parque e tratamos de aparelhar a toda a pressa. Entregaram-me duas muares convalescentes (mulas em mau estado) e logo segui até à casa onde tinha uma mala com as roupas e equipamentos. Prendi as mulas a um carro que ali chegou para levar as bagagens, e enquanto fomos dentro as muares fugiram com o carro pela estrada fora com o medo das granadas que caiam com toda a força por todos os cantos. Demos a correr deixando ali tudo e logo agarrei as mulas pelas correntes, mas como elas não quisessem andar depressa e o …

… caso não estava muito para vagares deixei-as ficar e montei n’um carro que ia passando em grande velocidade. Um francês que ia à nossa frente fugindo n’um carro de um cavalo, uma granada os despedaça tendo nós que atravessar por cima, seguindo sempre com muito sorte até à povoação de “La Perrette?”. Ai paramos porque as granadas eram mais raras. As estradas iam cheias de tropas, carros, camiões, automóveis, etc.

Através dos campos de La Gorgue só se via caminhar a gente civil das cidades de La Gorgue e de Estaire que fugiam como doidos deixando as suas casas, o seu comércio, a sua cidade, talvez terra Natal. Caminhavam velhinhos que tanto lhes custava a andar. Mulheres, com crianças às costas, deixando tudo e fugindo para bem longe. Aqui ficava um estendido com uma granada, ali ficava outro pedindo ainda aos que fugiam que o socorresse. Mas a aflição de todos era tão grande que não havia tempo para nada. O bombardeamento continuava enquanto os alemães já iam avançando. Aproximaram-se das nossas artilharias, mas as artilharias como já tinham acabado as munições com um martelo pesado, quebraram as culatras móveis dos canhões …

… e agarraram-se às baionetas. Alguns Batalhões fizeram o mesmo assim como infantaria 13, deram uma carga de baioneta esgrimindo corpo a corpo. As ambulâncias andavam a toda a pressa transportando feridos. E nós então, o resto da 4ª Brigada fomos seguindo sempre acompanhados por o fogo da Artelharia.

Locon - França.JPG

Chegamos a “Lacon” e o nosso General Gomes da Costa começou logo de ali separar num campo o pessoal dos Batalhões. Mas naquele momento, começam ali a cair granadas naquela povoação que escangalhavam tudo. Um grupo de Chinos que ali andavam a trabalhar começaram logo a fugir pelos campos fora. O General deu logo ordem para seguirem para “Saint Venant” aonde chegamos pela tarde.

Saint Venant - França.JPG

Ao passar nesta vila aparece ali muito baixo um aeroplano alemão descarregando. O nevoeiro era tanto com a fumaçada das granadas que apenas se via a uma pequena distância. Fomos seguindo à margem do canal de Lá-Lys até que chegamos a uma povoação perto da cidade de Aire, ao escurecer cheios de fome. Ali demos palha triga, que tiramos d’um palheiro, d’um francês às mulas e dormimos no mesmo palheiro. Tudo vinha completamente …

… desorganizada, soldados descalços, com barretes Ingleses, com as roupas todas rasgadas dos arames farpados, com capacetes Ingleses, etc. Durante a noite o bombardeamento continuava, cada vez mais avançado. As granadas zoniam por cima de nós, para a cidade de Aire, as metrelhadoras ouviam-se como quem estava à beira. No dia seguinte eu e mais alguns condutores, meteusse-nos na ideia de irmos n’um carro de esquadão à frente aonde deixamos as nossas malas, fomos pedir ao nosso Alferes da Administração Militar para nos dar licença e ele como tinha também lá deixado grande valor, assim como as malas resolveu ir também e mais o impedido. Lá fomos uns oito com o carro, chegamos à vila de Merville, passamos a estação e seguimos a estrada de Lestrem. Adiante estava um Posto de Socorro Inglês de onde as ambulâncias já não passavam. Descemos abaixo do carro e seguimos a pé ao lado.

Merville e Lestrem.JPG

Merville e Lestrem.JPG

Na estrada só encontramos maqueiros transportando feridos. Fomos seguindo, mas as metralhadoras podiam já alcançar-nos. Neste momento passa um automóvel do Estado-maior para a frente.

Chegamos ao encruzamento da estrada de Lá Gorgue e Lestrem e aí vinha já o automóvel para trás, que não pode seguir d’ali para diante, que as metralhadoras já atingiam aquele ponto. Ao passar por nós parou e o Oficial do Estado-maior falou para o nosso Alferes, perguntando-lhe aonde nós íamos.

Ele lhe disse o nosso destino, ao que ele lhe respondeu: Voltem imediatamente para trás e percam o sentido a tais coisas, que as metralhadoras já cortam aqui e mais vale salvar a vida do que tudo isso. Assim fizemos, voltamos para trás, chegando um pouco adiante, uns maqueiros Ingleses que vinham com um ferido já um pouco cansados chamaram por nós para lho trazer no carro o que lhe fizemos de boa vontade. Chegamos ao posto de socorros a onde estavam uns com os braços escangalhados, outros feridos pelas balas, etc. Metia horror aquele espectáculo. Tiraram a maca do carro e seguimos. Chegando às proximidades de Aire ao escurecer. Já as tropas tinham seguido para Mamentz. Seguimos para esta povoação chegando lá pelas oito horas da noite um pouco maçados e cheios de frio. Tratamos em procurar nesta aldeia um palheiro para …

Mametz.JPG

… para pernoitar. Corremos a aldeia toda e não encontramos. Depois sempre arranjamos de abrir a porta d’um coberto aonde não havia palha alguma, mas como tinha n’uma barra uns sacos de muinha tratamos em os botar abaixo e fizemos ali a cama. Pela manhã cedo apareceu-nos o lavrador, todo escamado e com modos arremessantes. Nós não fizemos caso, mas ele foi por um forcado para nós e eu então levanto-me e agarro num engaço e ele então fugiu a pregar. Ali estivemos em Mametz até às duas horas da tarde seguindo depois para a povoação de Dohem, aonde passamos a noite, n’uma barra de um lavrador.

Dohem.JPG

Ai comprei dois ovos que a fome já nos ia apertando. No dia seguinte 12 de Abril seguimos até à povoação de Senlecques, aonde passamos a noite, seguindo no dia 18, através daquelas aldeias até à povoação de Uberssent com destino à praia de Ambleteuse. Mas como as tropas iam muito desorganizados e nestas praias estavam tropas estrangeiras, ficamos em Ubersam?, até que nos mobilizasse-mos em condições de aparecer ao público. Neste dia já a fome era tanta que nos obrigava a comer beterrabas, que eram, uns nabos que os franceses davam ao gado no inverno. Ali fomos ---

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